segunda-feira, 10 de agosto de 2009

"Desmatamento hoje cai na pancada'' /entrevista

Época

10/08/2009

O ministro se diz otimista, mas os novos números do Inpe mostram que estamos mais longe das metas
Juliana Arini
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, garante que, em 2009, a Amazônia terá a menor perda de florestas dos últimos 20 anos. Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que essa promessa será mais difícil de cumprir do que Minc quer fazer crer. Na terça-feira, o Inpe revelou que entre 2007 e 2008 o desmatamento cresceu 12%, e não 3%, como se acreditava desde o ano passado. As derrubadas na Amazônia já destruíram uma área do tamanho do Estado de Goiás. Minc se mantém confiante. Nesta entrevista, ele diz por que acredita que o Brasil cumprirá os acordos internacionais de preservação assumidos em dezembro.
ENTREVISTA – CARLOS MINC

QUEM É
Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente

O QUE FEZ
Cortou o crédito agrícola de 36 municípios campeões de desmatamento na Amazônia e inaugurou o combate à pecuária ilegal com as operações de fiscalização Boi Pirata

ÉPOCA – O Inpe retificou a taxa de desmatamento de 2008. A área derrubada foi de 12.991 quilômetros quadrados, e não de 11. 968. Esses dados são um sinal vermelho?
Carlos Minc – Não, o Inpe sempre faz uma correção. Mas considero esses números como passado, algo fora de minha gestão. Eu atuei como ministro em apenas dois dos 12 meses avaliados. E foi nesse período que o desmatamento caiu.

ÉPOCA – Por que o senhor afirma que vai conseguir apresentar índices inéditos de combate ao desmatamento?
Minc – Já temos uma prévia dos dados do Deter (Detecção de Desmatamentos em Tempo Real). Se somarmos os últimos 11 meses, teremos apenas 3.500 quilômetros quadrados. O que indica uma perda de florestas de 8.000 quilômetros quadrados aproximadamente. Até hoje, a menor taxa anual de desmatamento foi da ministra Marina Silva, com 11.500 quilômetros quadrados.

ÉPOCA – Mas o Deter não é o sistema oficial para avaliar o desmatamento. Seu satélite só capta derrubadas superiores a 25 hectares, enquanto o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), o sistema oficial, capta até 6 hectares. Não é arriscado divulgar o controle de desmatamento com base apenas no Deter?
Minc – Não, minha afirmação é referente ao que vi nos últimos 11 meses. Só falta um mês para fechar os dados anuais. Não acredito que teremos surpresas.

ÉPOCA – O Inpe alerta que os dados do Deter podem estar camuflados pelo excesso de nuvens. O Pará teve 90% de seu território encoberto por seis meses. E, mesmo com a pouca visualização, é possível detectar grandes desmatamentos?
Minc – O problema do Pará é a ilegalidade fundiária. Lá, cada terra tem cinco donos, cada cartório tem cinco andares e todo documento ilegal de posse tem um favor concedido por um político. No fim de semana, durante a operação Boi Pirata, em Novo Progresso, políticos locais tentaram organizar a queima da sede do Ibama. Tivemos de mobilizar 20 policiais militares. Depois, um juiz concedeu uma liminar parando toda a fiscalização. A decisão foi derrubada no Tribunal Federal. Estamos enfrentando uma guerra, mas estou otimista com a fiscalização.

ÉPOCA – A correção dos dados do desmatamento pelo Inpe muda as metas internacionais de controle?
Minc – Sim. Antes, o desmatamento não poderia ultrapassar os 9.300 quilômetros quadrados, e agora não podemos superar os 8.300 quilômetros quadrados. Mas o desmatamento vai ficar abaixo disso.

ÉPOCA – Perder 8.000 quilômetros quadrados de florestas é seguro para a Amazônia?
Minc – Não, o melhor é zerar o desmatamento. Mas meu maior desafio é fazer isso sem apelar tanto para a fiscalização. Hoje, o combate ao desmatamento é na pancada. Ela é necessária, mas precisamos de mais alternativas de sustentabilidade, como a exploração não predatória da floresta e a regulamentação fundiária para reduzir a pressão sobre a Amazônia.

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