domingo, 18 de janeiro de 2009

Nye e a política externa de Obama

O jornal "Estado de São Paulo" de 18 de janeiro de 2009 traz importante matéria de Nye aplicando o seu marco teórico de "soft power" e "hard power" para compreender a futura política externa de Obama.

A arte de usar o ''poder inteligente''
Guerra tirou EUA do rumo; país deve deixar de exportar o medo para voltar a inspirar a esperança

Em sua audiência de confirmação para o cargo de secretária de Estado, Hillary Clinton disse: "Os EUA não podem resolver sozinhos os problemas mais prementes, e o mundo não pode resolvê-los sem os EUA. Precisamos usar o que tem sido chamado de ?poder inteligente?, o leque completo de ferramentas à nossa disposição."

Poder inteligente é a combinação de poder duro (hard power) e poder brando (soft power). Poder brando é a capacidade de obter os resultados preferidos mais pela via da atração do que da coerção ou de pagamentos. As pesquisas revelam um sério declínio na capacidade de atração americana na Europa, América Latina e em todo o mundo muçulmano.

Os recursos que produzem poder brando para um país incluem sua cultura (que tem de ser atraente para outros); seus valores (que devem ser atraentes, e não solapados por práticas inconstantes); e suas políticas (que têm de ser vistas como inclusivas e legítimas aos olhos de outros).

Quando se pergunta aos pesquisados por que eles registram um declínio no poder brando americano, eles citam mais as políticas do que a cultura e os valores dos EUA. Como é mais fácil um país mudar suas políticas do que sua cultura, isso implica que o presidente eleito, Barack Obama, será capaz de escolher políticas que poderão ajudar a recuperar parte do poder brando americano.

Evidentemente, o poder brando não é a solução para todos os problemas. Mas outros objetivos como a promoção da democracia e dos direitos humanos são mais facilmente alcançados pelo poder brando. Há pouco mais de um ano, uma comissão bipartidária concluiu que a imagem e a influência dos EUA haviam declinado nos últimos anos, e eles teriam de deixar de exportar medo para inspirar otimismo e esperança.

A comissão não estava sozinha em sua conclusão. O secretário de Defesa, Robert Gates, pediu para o governo colocar mais dinheiro e esforços em ferramentas de poder brando, incluindo diplomacia, ajuda econômica e comunicações, porque os militares sozinhos não podem defender os interesses americanos em todo o mundo. Ele assinalou que os gastos militares totalizam anualmente quase US$ 500 bilhões, enquanto o orçamento do Departamento de Estado é de apenas US$ 36 bilhões.

O Pentágono é o braço mais bem treinado e com mais recursos do governo, mas há limites para o que o poder duro pode alcançar sozinho. Promover democracia, direitos humanos e desenvolvimento da sociedade civil não recebem melhor tratamento por causa de um canhão.

As consequências dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 tiraram os EUA do rumo. O terrorismo é uma ameaça real e, provavelmente, estará entre nós por décadas, mas reagir com excesso a provocações de extremistas nos causa mais danos do que os terroristas jamais conseguiriam causar.

O sucesso na luta contra o terror significa encontrar uma nova premissa central para a política externa americana em substituição ao tema corrente de "guerra contra o terror". Um compromisso com a promoção do interesse global pode fornecer essa premissa.

Os EUA podem se tornar um poder inteligente investindo em interesses públicos globais. Desenvolvimento, saúde e enfrentamento da mudança climática são bons exemplos. Ao complementar o poder econômico e militar americano com mais investimento no poder brando, e centrando em interesses públicos globais, os EUA poderão reconstruir o arcabouço de que precisam para lidar com desafios globais complexos.

O estilo também conta, mesmo quando os interesses públicos são a substância da política. Em 2001, o colunista Charles Krauthammer defendeu o que chamou de "um novo unilateralismo" que reconhecia que os EUA eram a única superpotência, e eram tão fortes que poderiam decidir o que era certo e esperar que outros os seguissem porque não teriam muita escolha. Mas esse estilo se mostrou contraproducente para atingir os objetivos americanos.

O governo Obama terá de criar um poder brando e relacioná-lo ao poder duro com estratégias inteligentes. A má notícia é que Obama e Hillary enfrentam um ambiente internacional adverso. A boa é que presidentes anteriores conseguiram empregar poder duro, brando e inteligente em contextos igualmente adversos, e Hillary mostrou em seu depoimento que compreende isso.

Em 1970, durante a Guerra do Vietnã, a imagem dos EUA estava desgastada em muitas partes do mundo, mas com a modificação das políticas e a passagem do tempo, conseguimos recuperar nosso poder brando. Se já aconteceu antes, pode acontecer de novo

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