sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país"/Entrevista

O Globo

23/09/2009

Ricardo Galhardo

Presidente deposto nega acordo prévio com o Brasil e diz que escolheu o país pela identidade democrática de LulaRefugiado há dois dias na embaixada do Brasil em Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya disse ao GLOBO, por telefone, que escolheu a representação brasileira devido ao caráter democrático do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um amigo de Honduras, segundo ele. Zelaya negou que tenha acertado a estratégia durante sua visita ao Brasil, no dia 12 de agosto. Ele aproveitou para pedir uma ação mais enérgica dos organismos internacionais contra o governo golpista.Ricardo Galhardo

O GLOBO: Como está a situação na na Embaixada do Brasil? MANUEL ZELAYA: A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país e há um cerco militar à embaixada.

Tem havido muita violência desde sua volta ao país, na segundafeira? ZELAYA: Na verdade, a violência começou no dia 28 de junho. Tem havido muitos assassinatos, raptos, torturas. Há informes da comissão de direitos humanos (da ONU). A violência tem uma preponderância muito forte em um regime militar provocado por um golpe de Estado.

Em que pé estão as negociações com o governo de facto para sua restituição ao poder? ZELAYA: Até o momento, não foi realizada nenhuma negociação.Os golpistas responderam às minhas solicitações de diálogo com balas, bombas, mortes e ameaças às pessoas que estavam participando das manifestações de resistência.

As organizações internacionais como OEA têm ajudado? ZELAYA: Elas têm manifestado boas intenções, mas o que esperamos é que ajam com mais energia frente a esta situação de opressão ao povo hondurenho, já que os ataques são armados e violentos e estão criando demasiada repressão em Honduras.

Por que o senhor escolheu a Embaixada do Brasil? ZELAYA: Pela profunda identificação democrática do presidente Lula e pelo esforço que ele tem liderado para sustentar nosso país com muitos projetos. O presidente Lula é um amigo de Honduras.l

O abrigo na embaixada foi negociado com o presidente Lula durante sua última visita ao Brasil? ZELAYA: Não, não foi negociado.Não dei conhecimento ao presidente Lula sobre essa situação. Isso foi decidido por mim assim que entrei aqui na capital de Honduras.Nada foi acertado previamente com o Brasil.

Um comentário:

Guilherme Scalzilli disse...

Faces do golpismo

Há duas atitudes aparentemente distintas perante o golpe de Estado hondurenho.
Uma destila o tradicional veneno antidemocrático, de retórica agressiva e valores distorcidos. Encontramo-la no udenismo renovado que aflorou no vácuo moral das classes médias urbanas. Para a vertente, Zelaya caiu porque mereceu, porque o “chavismo” deve ser combatido a porrete.
A outra face, enganadoramente inofensiva, escuda-se na apatia manhosa do pior provincianismo. Prefere a omissão do colonizado jeca, escancarando a banguela, tirando o chapéu para o painho estadunidense. Tem vergonha de ser brasileiro e defende que o país ocupe seu lugar na latrina do mundo subalterno. Convenientemente ignóbil, não “consegue” perceber que as próximas eleições hondurenhas vão justamente sacramentar o golpe, tornando-o irreversível e impune.
Ambas as posturas são complementares e indissociáveis. Mescladas nas diversas gradações combinatórias possíveis, constituem o estofo ideológico de todo movimento golpista: sempre há uma vanguarda atuante, apoiada na massa de manobra servil, que lhe garante a ilusão da legitimidade.
É importante entender esse mecanismo em funcionamento durante episódios externos e distantes, para reconhecê-lo quando operar em nosso próprio ambiente.