sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Cúpula dos países latino-americanos

Editorial da Folha de São Paulo do dia 19 de dezembro faz um balanço da cúpula de Estados latino-americanos que ocorreu nesta semana na Bahia.


Equilíbrio difícil

TERMINOU em saia justa, para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ciclo de reuniões entre líderes latino-americanos ocorrido na Bahia. Cercado de "bolivarianos" por todos os lados, o brasileiro teve de suportar calado as perorações contra o pagamento de dívidas externas -inclusive as contraídas com o Brasil.
Se não resultaram em nada de concreto, como de hábito, os encontros num resort baiano, chamados de "multicúpulas", serviram para explicitar a peculiaridade da posição brasileira na América Latina. Ao mesmo tempo em que abriga uma cúpula onde se propaga a catilinária antimercado e anti-Estados Unidos, o país anfitrião acaba sendo vítima do mesmo discurso.
Não haveria de ser diferente. Por uma série de motivos -das opções políticas tomadas pelos seus governantes à relativa diversificação e prosperidade de sua economia-, o Brasil se afastou do substrato que favorece o populismo na região. O respeito aos contratos e às instituições, em meio à importância crescente do mercado, caracteriza uma das transformações da política brasileira nas últimas décadas.
Parte desse processo, a mais recente onda de expansão dos interesses empresariais brasileiros começa a despertar incômodo parecido -em menor escala- ao propiciado pelas multinacionais americanas e européias no passado. Os apelos do governo Lula, no sentido de que nosso "imperialismo" seria mais suave que o dos outros, têm sido inócuos.
A tentativa de criar uma OEA paralela na reunião da Bahia é apenas uma anedota -pois carece de fundamento jurídico e está repleta de impasses políticos- que reflete a mesma contradição. A seguir-se a mesma lógica, uma "organização" em que estão todos menos os EUA e o Canadá poderia ser o prenúncio de uma outra, de que o Brasil, que insiste em cobrar o que lhe é devido e ainda espalha empresas pela região, também seria excluído.
O próprio peso conferido por Brasília à questão cubana deveria diferenciar-se ainda mais da estridência dos presidentes Hugo Chávez e Evo Morales -e do modo unilateral de enxergar o tema ecoado na nota publicada na Bahia. A dissolução do impasse entre a ditadura cubana e o governo americano é um objetivo de importância relativa para a paz regional, mas não é uma prioridade para a política externa brasileira.
O amadurecimento diplomático do Brasil já permite que o país trate com eqüidistância esse litígio. O bloqueio econômico contra a ilha, associado a outros mecanismos do gênero, é uma violência praticada pelos EUA. Mas não é possível ignorar as atrocidades cometidas ao longo de meio século pelo regime dos Castro, a única ditadura -tão impiedosa com dissidentes como foi a de Pinochet no Chile- que ainda sobrevive no continente.
Em resumo, um equilíbrio cada vez mais difícil e complexo se anuncia na política do Brasil para a América Latina -e o motivo é o relativo destaque do desenvolvimento do país na chamada era da globalização.

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