domingo, 28 de março de 2010

Umberto Eco

Corpos do além
Em "Arte e Beleza na Estética Medieval", Umberto Eco analisa a relação entre o concreto e o transcendental

Os corpos mutilados e torturados dos mártires resplandeciam de beleza interior

HILÁRIO FRANCO JÚNIOR
ESPECIAL PARA A FOLHA de 28 de março de 2010

Para muitos, o nome de Umberto Eco (1932) está associado ao romance policial ambientado na Idade Média "O Nome da Rosa" [ed. Record]. O que pode ter passado desapercebido a vários de seus leitores é a importância que ali ocupa o tema da beleza.
O narrador é um belo monge que se recorda de "belíssimas igrejas"; que de sua abadia admira um nimbo de "tremenda beleza"; que na sua imaginação funde a bela Virgem [Maria] contemplada em estátuas e a bela herege descrita por alguém; que percebe que "a visão do belo comporta a paz" e que "é belo o mundo".

Feio e belo
Diante das inúmeras referências ao belo e ao feio no seu romance, não surpreende que o estudioso italiano tenha recentemente dirigido uma "História da Beleza" e uma "História da Feiura" [ambos publicados pela Record].
O interesse de Eco pelo tema desde o início da carreira o levou, em 1987, a produzir uma síntese, traduzida no Brasil em 1989 e agora reeditada -"Arte e Beleza na Estética Medieval".
Como o título sugere, não se trata de obra sobre fatos artísticos, e sim sobre as ideias estéticas produzidas entre os séculos 6º e 15.
Tais ideias demonstram que a sensibilidade estética da época não era apenas metafísica, como lhe atribuíram os renascentistas, mas também voltada a experiências concretas. Se os moralistas medievais criticavam as belezas materiais, não era por indiferença a elas -era justamente por serem sensíveis a elas e recearem, assim, se afastar das coisas divinas.

Legibilidade e rigor
A fruição estética medieval encontrava seu objeto menos na natureza e na arte (esta entendida como imitação inventiva daquela) do que nas relações entre ambas e o mundo superior. Os corpos mutilados e torturados dos mártires não deleitavam a visão, mas resplandeciam de beleza interior.
O belo daqui reflete, de forma esmaecida, o belo do além. Assunto tão vasto e rico exigiria do leitor certos conhecimentos técnicos sobre a filosofia medieval, não fosse a opção do autor por um texto introdutório. O resultado é, de fato, perfeitamente legível pelo público culto não medievalista, sem deixar de ser útil a ele.
Tal opção cobra, contudo, um preço ao rigor em certas passagens. Para lembrar um único caso, ao explicar a cosmovisão simbólica, Eco aceita a expressão de Mumford sobre a "situação neurótica" da Idade Média e justifica o historiador norte-americano dizendo que a época tinha "visão deformada e confusa da realidade".
Não é preciso insistir que falar assim pressupõe adotar como referencial uma realidade supostamente correta e ordenada, cuja existência estudiosos de diferentes áreas teriam dificuldade em aceitar.

Edição descuidada
Mas o livro é valioso, daí ser pena que esta reedição não tenha merecido mais cuidados. Não foram corrigidas da edição anterior algumas impropriedades de tradução, caso de "idade das trevas" transformada numa expressão sem sentido ("evos escuros").
Tampouco foram consertadas certas grafias como Bakhtin (não Bachin), Scholem (não Schlolem), mosteiro de São Galo (ou Sankt Gallen no original alemão, nunca San Gallo, forma italiana).
Perdeu-se, ainda, a oportunidade de introduzir outras melhorias. Abandonar a mania editorial (não apenas no Brasil) de esconder as notas no fim do texto, como que a pressupor que somente alguns leitores farão uso delas, eliminaria o desconfortável trabalho de ir e vir entre o texto e as páginas finais.
Atualizar algumas indicações bibliográficas teria prestado serviço aos leitores brasileiros.
Eco exalta, com razão, o clássico "Estudos de Estética Medieval", de Edgar de Bruyne, e lamenta que esse livro não seja mais encontrável.
Ora, isso era verdade no momento em que Eco escrevia, porém em 1998 o livro foi reeditado na França, informação útil aos interessados.
Também se poderia ter indicado que há tradução em português de vários títulos citados na bibliografia: Auerbach, Bakhtin, Cohn, Curtius, Duby, Eco, Focillon, Foucault, Gilson, Hauser, Huizinga, Le Goff, Rougemont, Scholem, Todorov, Yates, Zumthor.