segunda-feira, 20 de abril de 2009

Boicotes esvaziam conferência sobre racismo

O Globo

20/04/2009

Obama critica esboço da declaração por antissemitismo e abandona evento da ONU junto com mais sete países

GENEBRA. As Nações Unidas abrem hoje sua primeira conferência sobre racismo depois de oito anos com pelo menos sete países, incluindo os Estados Unidos, boicotando o evento por temores de que o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e outros líderes islâmicos transformem o encontro numa plataforma contra Israel e a liberdade de expressão.

Alemanha, Austrália, Holanda, Itália, Israel, Nova Zelândia e Canadá anunciaram que também não participarão do encontro, esvaziando a conferência que tem por objetivo rever o progresso alcançado no combate ao racismo desde a realização de um fórum na África do Sul, em 2001.

Além disso, a reunião tinha por intenção curar as feridas abertas durante o encontro de 2001, abandonado por Estados Unidos e Israel depois que países árabes tentaram definir o sionismo como uma forma de racismo. Mas o resultado acabou sendo o contrário por causa do esboço da declaração conjunta. Para os EUA, o texto repete a postura discriminatória em relação a Israel adotada na África do Sul, apesar de omitir referências sobre o país e sobre o Oriente Médio.

Os Estados Unidos não participaram da preparação do controverso texto. Representantes europeus fizeram parte das discussões, mas mostraram objeções durante todo o processo.

Os EUA anunciaram a saída no sábado, citando linguagem “repreensível” no rascunho de declaração preparado por meses antes do evento de Genebra, que terá Ahmadinejad discursando no dia de abertura.

Austrália, Holanda, Itália e Alemanha fizeram o mesmo no domingo. Israel e Canadá já haviam anunciado anteriormente o boicote.

"Adoraria estar envolvido numa conferência útil" De Trinidad e Tobago, onde par ticipava da Cúpula das Américas, o presidente americano, Barack Obama, disse que os Estados Unidos queriam que o texto fosse “passado a limpo” antes de o país participar de discussões sobre raça e discriminação na ONU.

— Adoraria estar envolvido numa conferência útil que tratasse das constantes questões ligadas ao racismo e à discriminação ao redor do mundo — disse Obama, fazendo em seguida uma referência sobre Israel. — Expressamos nossas preocupações sobre o uso da linguagem adotada em 2001. Isso é algo de que não podemos ser signatários.

Seu governo disse que não endossaria nenhuma declaração que discriminasse Israel ou que incluísse passagens pedindo a proibição de linguagem considerada como “instigadora” do ódio religioso.

Muitos países muçulmanos defendem uma restrição à liberdade de expressão para evitar o que consideram ser insultos ao Islã, como as charges sobre o profeta Maomé publicadas por um jornal dinamarquês em 2005, gerando uma onda de protestos no mundo árabe.

Bento XVI defende realização de encontro A Austrália disse que compartilhava dos temores dos EUA sobre a declaração.

— Lamentavelmente, não podemos ter confiança de que a conferência não vá ser usada mais uma vez como plataforma de posições ofensivas, incluindo visões antissemitas — disse o primeiro-ministro Australiano, Stephen Smith.

O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, FrankWalter Steinmeier, disse que “a decisão não foi fácil”: — Mas governo acha que, apesar de esforços intensos, especialmente por parte da União Europeia, a conferência vai ser usada de forma inapropriada por outros interesses, exatamente como foi a anterior.

Já o Papa Bento XVI defendeu a realização do encontro, dizendo ser uma oportunidade para lutar contra discriminação e intolerância.

— Pedimos ações firmes e consistentes, em níveis nacionais e internacionais, para prevenir e eliminar qualquer forma de discriminação e intolerância.

Grupos de direitos humanos disseram que, sem a presença de líderes ocidentais, a declaração possivelmente não será ratificada e poderá ser reaberta para negociação durante a conferência

domingo, 19 de abril de 2009

Caso Fujimori é aviso aos ditadores

O Estado de São Paulo

19/04/2009
Mario Vargas Llosa

A condenação do ex-ditador peruano Alberto Fujimori a 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos por um Tribunal da Corte Suprema do país transcende amplamente os limites geográficos peruanos e paira a partir de agora sobre toda a América Latina como uma advertência aos que, de uma ponta a outra do continente, aspirem a tomar de assalto o poder e governar amparado na força. Ficam sabendo os governantes que espezinham a Constituição e as leis e mandam torturar e assassinar que seus crimes não ficarão impunes, como quase sempre ocorreu até agora, mas que tarde ou cedo poderão ser julgados e punidos por seus próprios povos. Trata-se de um precedente histórico único para os que sonham com uma América Latina emancipada para sempre da peste autoritária.

O ex-ditador foi condenado por dois sequestros e dois massacres particularmente cruéis entre os muitos que foram perpetrados durante seu regime, mas não pelo delito mais grave que cometeu: ter destruído, por um ato de força militar, em 5 de abril de 1992, a democracia graças a qual havia sido eleito dois anos antes em eleições legítimas para ocupar a presidência do Peru.

FALSO PRETEXTO

Os dois sequestros - do jornalista Gustavo Gorriti e do empresário Samuel Dyer - coincidiram com o golpe de Estado. O primeiro dos massacres foi realizado alguns meses antes, em novembro de 1991, num bairro do centro de Lima - Barrios Altos -, onde um esquadrão da morte conhecido como Grupo Colina, integrado por militares e formado com a anuência de Fujimori, assassinou 15 pessoas, entre elas um menino de 8 anos, que celebravam uma festa. O pretexto - falso - para a invasão e os assassinatos era de que a festa seria na verdade uma reunião para arrecadar fundos para o movimento terrorista Sendero Luminoso.

Um dos fatores que desencadeou a ação foi, contudo, garantir a impunidade para os delitos que o novo governo já vinha cometendo, não só contra os direitos humanos, mas também econômicos, pois já havia começado a espoliação do patrimônio público, algo que, nos anos seguintes, alcançaria um ritmo vertiginoso sob a batuta do braço direito do presidente e especialista em latrocínios Vladimiro Montesinos.

A outra matança foi realizada em julho de 1992. Durante a noite, os pistoleiros do Grupo Colina invadiram a Universidade La Cantuta, que estava sob intervenção e cercada por uma força militar, e sequestraram nove estudantes e um professor. Todos foram assassinados com tiros na nuca em um descampado vizinho da universidade. Os matadores os enterraram ali mesmo, e, tempos depois, quando o jornalismo independente, a despeito das manobras de encobrimento do regime, descobriu as pegadas do crime, os desenterraram, queimaram e tornaram a enterrar os ossos em outro lugar.

MANCHA

O escândalo internacional que eclodiu quando essa história macabra se tornou pública expôs as entranhas sangrentas do sistema. Foi um dos episódios que mais mancharam a imagem da ditadura perante o povo peruano, parte do qual até então a apoiava na equivocada crença de que um governo autoritário poderia ser mais eficiente do que a democracia no combate aos terroristas do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Túpac Amaru.

Aliás, não foram os esquadrões da morte da ditadura que derrotaram Abimael Guzmán e os senderistas, mas um fato que marcou uma mudança qualitativa na luta antissubversiva. A captura de seu líder e de quase todo o Comitê Central do Sendero Luminoso deu-se graças a um rastreamento científico conduzido por um pequeno grupo de policiais adversário de Vladimiro Montesinos e do serviço de inteligência do regime.

EXEMPLO

O julgamento de Fujimori durou cerca de 17 meses, foi televisionado, assistido por jornalistas e observadores internacionais, e o acusado teve todas as garantias do direito de defesa respeitadas.

O tribunal de três membros, presidido por um prestigiado criminalista, magistrado e professor universitário, o doutor César San Martín, cuja conduta ao longo do processo foi de uma serenidade e correção reconhecida por gregos e troianos, emitiu uma sentença que devia ser publicada e ensinada nas escolas de toda a América Latina (resumida, porque tem quase 700 páginas).

O veredicto deve ser ensinado nas escolas para que as novas gerações conheçam, mediante fatos concretos e pessoas identificadas, a tragédia que significa para um país - em sofrimento humano, insegurança pública, delinquência, distorção de valores, mentiras, desprezo pelos mais elementares direitos de que um cidadão deveria gozar numa sociedade moderna, em corrupção e degradação das instituições - ter uma ditadura como a com que o Peru padeceu entre 1992 e 2000.

Uma ditadura que só terminou quando Fujimori, fracassando em seu intento de se reeleger em eleições fraudulentas, fugiu para o Japão e, já do outro lado do mundo, renunciou à presidência por fax.

sábado, 18 de abril de 2009

Os Estados Unidos reconhecem gás carbônico como poluente

Folha de São Paulo, sábado, 18 de abril de 2009



Gás carbônico é poluente, admitem EUA
Agência ambiental decreta que gases de efeito estufa são ameaça à saúde, abrindo caminho para regulação de emissões

Conclusão assinada ontem responde a determinação da Suprema Corte de 2007, que fora ignorada pelo governo de George W. Bush

Usina termelétrica a carvão, tipo de energia que mais emite gases-estufa, em frente ao prédio do Congresso dos Estados Unidos

Agora é oficial. O gás carbônico (CO2) e outros cinco gases de efeito estufa foram decretados poluentes nos EUA, o que obriga pela primeira vez o maior responsável pelo aquecimento global a regular suas emissões.
As conclusões são de um relatório de 133 páginas produzido por cientistas da EPA (Agência de Proteção Ambiental) americana e assinado ontem pela administradora do órgão, Lisa Jackson.
O documento, disponível na internet (epa.gov/climatechange/endangerment.html), afirma que as atuais e futuras emissões do conjunto de seis gases do efeito estufa na atmosfera "ameaçam a saúde pública e o bem-estar da geração atual e das futuras".
Além do CO2, fazem parte do pacote o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), os hidrofluorocarbonos (HFCs), os perfluorocarbonos (PFCs) e o hexafluoreto de enxofre (SF6) -o mesmo grupo de gases que o Protocolo de Kyoto, rejeitado pelos Estados Unidos, visa regular.
No decreto, Jackson afirma que as conclusões científicas que apoiam a chamada declaração de ameaça representada pelos gases são "convincentes e completas". A conclusão agora ficará em consulta pública durante 60 dias antes que qualquer proposta de regular as emissões seja publicada.
"Essa conclusão confirma que a poluição causada pelos gases-estufa é um problema sério para as gerações atuais e as futuras. Felizmente, ela segue o pedido do presidente Obama por uma economia de baixo carbono e uma forte liderança no Congresso em relação à legislação de energia e clima", declarou a chefe da EPA.
Jackson acrescentou que combater os gases que causam a mudança climática ajudaria a criar milhões de empregos e a reduzir a dependência americana de petróleo estrangeiro, ao estimular o desenvolvimento de uma indústria energética e de transportes limpa.

Cercando o problema
O decreto de ontem é a resposta da EPA a uma determinação da Suprema Corte dos Estados Unidos de 2007 para que a agência determinasse se o CO2 é um poluente atmosférico ou não. Os cientistas da agência concluíram que sim, mas a administração de George W. Bush suprimiu as conclusões e não fez nada a respeito.
A conclusão da EPA permitirá que os seis gases-estufa sejam regulados pelo Clean Air Act, a mesma lei que limita a emissão de outros poluentes do ar, como o enxofre, independentemente de o Congresso americano aprovar ou não uma lei de corte de emissões.
Foi o Congresso que se recusou a ratificar o Protocolo de Kyoto, ainda no governo Clinton. E projetos de lei que estabelecem um sistema de "cap-and-trade" (ou seja, que limite as emissões e permita o comércio de cotas de poluição) têm falhado em conseguir a maioria de dois terços necessária para sua aprovação pelo Senado. Um deles foi derrubado pelos Republicanos em 2008. Há outro em apreciação na Câmara, cuja aprovação poderia esvaziar uma eventual ação da EPA.
Obama e Jackson têm dito que preferem que o Congresso legisle sobre o tema. Ambientalistas e parlamentares favoráveis ao corte de emissões comemoraram a medida da EPA.
"A decisão vira o jogo", disse o deputado democrata Ed Markey, que está ajudando a definir a nova legislação. "Não é mais uma escolha entre fazer uma lei ou não fazer nada."
"A poluição de efeito estufa de nossos carros e usinas de energia leva a ondas de calor assassinas, furacões mais fortes (...) e várias outras ameaças diretas e indiretas à saúde", disse David Doniger, advogado do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais. Referindo-se ao governo Bush, ele emendou: "A era de desafiar a ciência e a Suprema Corte acabou."
Já o presidente da Associação Nacional das Indústrias, John Engler, ataca a EPA. Para ele, regular gases-estufa pelo Clean Air Act "custa empregos" e "impõe mais um fardo a uma economia combalida, fazendo pouco ou nada pelo ambiente".

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Rússia encerra operação na Chechênia

O Estado de São Paulo

17/04/2009

AFP, Reuters e NYT
Fim das ações antiterror pode levar à retirada de soldados da região
O governo da Rússia encerrou ontem oficialmente a operação antiterrorismo na Chechênia, fato que marca o fim de uma década de presença russa na república do Cáucaso. A decisão tem como objetivo normalizar a situação na região e fortalecer o presidente checheno, Ramzan Kadyrov, aliado do premiê russo, Vladimir Putin.
"O chefe da Comissão Nacional Antiterrorista da Rússia, Alexandre Bortnikov, anulou em 16 de abril a ordem que declarava o território da república (da Chechênia) uma zona de operação antiterrorista", afirmou o órgão em comunicado. "Essa decisão tem como objetivo criar condições para a normalização da situação na região e desenvolver sua infraestrutura econômica e social."
A comissão não mencionou nada sobre a retirada das forças de segurança da região, mas a imprensa russa citou fontes oficiais que afirmaram que cerca de 20 mil policiais devem deixar a Chechênia. Apesar de os índices de violência terem caído nos últimos anos, os insurgentes ainda não foram derrotados completamente.
Após o anúncio, chechenos tomaram as ruas da capital Grozny levando bandeiras da república e da Rússia. "Estou muito feliz que a guerra finalmente tenha acabado", afirmou o estudante Magomed Nagayev. Desde o colapso da União Soviética, a Chechênia tem sido uma dor de cabeça para o Kremlin. Ao todo, foram duas guerras e milhares de mortos. Estima-se que, desde 1994, cerca de 100 mil pessoas - ou 10% da população chechena - morreram durante os dois conflitos entre rebeldes separatistas e soldados russos.
Restrições como toque de recolher, bloqueios de estrada, buscas e detenções arbitrárias foram impostos na região de maioria muçulmana em 1999, durante o governo de Boris Yeltsin. O então líder russo ordenou que as operações antiterrorismo começassem em resposta aos atentados contra diversos edifícios em Moscou. O Kremlin culpou terroristas chechenos pelas explosões e enviou para a república forças militares coordenadas por Putin, na época primeiro-ministro russo.
Depois de a Chechênia ser sacudida por bombas, Putin apontou Kadyrov para tentar recuperar a república e pôr um fim à resistência rebelde. Organizações de direitos humanos e jornalistas acusam o governo de Kadyrov de sequestro, tortura e execuções extrajudiciais para conseguir atingir suas metas.

SEGURANÇA
"Se a operação antiterrorista terminou, então significa que vencemos os bandidos. Podemos anunciar tranquilamente nossa vitória", disse Kadyrov, um ex-rebelde conhecido por seu gosto excêntrico - ele é dono de um zoológico particular. "Eu perdi mais de 400 colegas, amigos e parentes, mas hoje confirmamos que nossa república é a região mais segura da Rússia."

REVOLTA CHECHENA
1/10/1999 - Russos entram na Chechênia para combater rebeldes separatistas
6/2/2000 - Putin diz que tropas russas assumiram o controle total da capital chechena Grozni
17/2/2000 - Rebeldes chechenos condenam Putin à morte e anunciaram um prêmio de US$ 2,5 milhões pela cabeça dele
25/2/2000 - Após TV alemã exibir imagens de soldados russos enterrando corpos mutilados e com sinais de tortura em valas comuns, aumenta a pressão internacional para que Moscou investigue denúncias de violação dos direitos humanos na Chechênia
24/2/2001 - Representante da Chechênia no Parlamento russo reconhece que foi "impossível" deter a "limpeza étnica" na região
23/10/2002 - Comando checheno toma 700 reféns em teatro de Moscou. Assalto das forças especiais russas deixa 129 mortos
3/9/2004 - Terroristas chechenos tomam escola em Beslan, na república da Ossétia do Norte. Cerco acaba com 200 mortos e 700 feridos
2/3/2007 - Ramzan Kadyrov torna-se presidente checheno
Ontem - Rússia anuncia o fim das operações na Chechênia.

A hora do confronto

O Globo

17/04/2009

Obama visita o México um dia antes da Cúpula das Américas. Chávez e Raúl atacam reunião

CIDADE DO MÉXICO e CARACAS

As horas que antecederam o início da Cúpula das Américas foram repletas de mensagens contrastantes. Enquanto o presidente dos EUA, Barack Obama, visitava o México, onde disse que espera que Cuba dê os próximos passos em direção à democracia e promova mudanças, os líderes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales, receberam o presidente cubano, Raúl Castro, para tentar esvaziar o encontro que começa hoje em Trinidad e Tobago. Antes mesmo do início da reunião, Chávez afirmou que liderará um grupo de países que deverá “vetar” a declaração final do encontro de 34 países americanos, do qual Cuba estará ausente.

Na cidade venezuelana de Cumana, Chávez foi o anfitrião da 7areunião da Alternativa Bolivariana para as Américas, a Alba, que contou com a presença dos presidentes dos países-membros Cuba, Bolívia, Nicarágua, Honduras e Dominica, além dos chefes de governo de Paraguai e São Vicente e Granadinas.

— Há uma declaração que é difícil de assimilar. Está totalmente deslocada no tempo e no espaço, como se o tempo não tivesse passado — disse Chávez. — A Venezuela veta agora mesmo essa declaração. Até ontem à noite, estavam discutindo lá (em Trinidad e Tobago), e nós, junto com outros países, dizemos que não estamos de acordo com esta declaração.

O venezuelano, no entanto, não disse qual ou quais trechos o deixaram tão irritado. Os governos de Venezuela e Nicarágua, por exemplo, diziam não serem contrários à menção a “democracia e direitos humanos” no documento.

Muitos apontam que o apoio que a declaração daria à Carta Democrática Interamericana, aprovada em 2001, seria o motivo da reação. O rascunho prevê uma convocação à defesa da “democracia representativa”, fórmula contrária aos interesses de regimes com líderes que preferem impor suas propostas com eleições e referendos, exemplos de democracia direta.

O cubano Raúl Castro também surpreendeu ontem. No momento em que Cuba se tornava um dos temas principais da cúpula — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dispusera a mediar uma aproximação entre EUA e Cuba para que o país volte à OEA e o embargo acabe —, Raúl disse que a organização deveria acabar.

— A OEA tem que desaparecer — disse Raúl. — Antes de (Cuba) entrar na OEA, primeiro se unirá o Mar do Norte e o Mar do Sul, e nascerá uma serpente de um ovo de águia.

Morales pede para ser expulso da OEA Em declarações inesperadas, Morales chegou a pedir que seu país seja expulso da OEA.

— Quero dizer aos membros da OEA que me declaro marxista, leninista, comunista e socialista. Agora quero que me expulsem da OEA — disse o boliviano, que, porém, não solicitou a retirada de seu país da entidade.

As declarações foram feitas no dia em que Obama visitou pela primeira vez, como presidente, o México. Ele disse que “não veria problema algum” no fato de a reintegração de Cuba à OEA ser um dos temas da reunião. Frisou suas recentes mudanças na lei — permissão de viagens e remessas de dinheiro de americanos para parentes em Cuba — e disse que chegou a vez de a ilha “dar alguns passos”.

— Não esperamos que isso ocorra da noite para o dia. Mas há passos que o governo de Cuba deve tomar para mudarmos a história dos últimos 50 anos. Passos como direitos humanos, políticos, liberdade de expressão, de religião, de viajar.

A resposta de Cuba viria de noite, quando Raúl Castro deu o primeiro sinal de resposta às medidas dos EUA e se disse disposto a discutir “tudo: direitos humanos, liberdade de imprensa e presos políticos”.

A visita ao México serviu para Obama demonstrar apoio público ao presidente Felipe Calderón, que enfrenta uma batalha contra cartéis de drogas que provocaram a morte de 6.300 pessoas em 2008. Em entrevista à rede CNN em espanhol que foi ao ar horas antes de ele chegar à Cidade do México, Obama disse que Calderón está fazendo “um trabalho sensacional e heroico” na luta contra o narcotráfico.

E reconheceu que os EUA têm boa parcela de responsabilidade pelo tráfico de armas a gangues mexicanas.

Obama, inclusive, anunciou que os EUA devem ratificar o Tratado Interamericano de Tráfico de Armas, de 1997. Os EUA são um dos cinco países que não ratificaram o documento.

Obama chega à 5aCúpula das Américas amparado por uma pesquisa realizada em 20 países do continente que mostrou que ele é o líder político mais popular da região, com a aprovação de 70% das 12 mil pessoas entrevistadas pelo Barômetro de Governabilidade Latino-Americano e da Península Ibérica. Lula é o segundo, com 58,9%, e Chávez, o último, com 28%. De noite, a Casa Branca anunciou que Obama não tem intenção de marcar um encontro em separado com Chávez.

Cúpula das Américas

Folha de São Paulo

17/04/2009

Obama tem a chance de acabar com embargo a Cuba e permitir que agenda regional evolua para temas relevantes

COMEÇA HOJE , em Trinidad e Tobago, a 5ª Cúpula das Américas. O fórum, criado em 1994, reunirá até domingo 34 líderes para discutir temas como reformas econômicas, energia renovável, segurança pública e a luta contra o tráfico de drogas.
Não é nessa pauta que se concentrarão, entretanto, as atenções dos líderes. As expectativas se voltam para a estreia do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na diplomacia direta da região.
Entre suas movimentações preliminares, o democrata marcou um encontro, no sábado, com representantes da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), entidade criada por iniciativa de Brasil, Argentina, Chile e Venezuela como contraponto à influência americana. O estilo conciliador do presidente americano, já esboçado nas relações com o Irã e a Rússia, tende a esvaziar o discurso antiamericano de líderes populistas como Hugo Chávez e Evo Morales.
Para distender as relações de seu país com a América Latina, Obama se escora no presidente Luiz Inácio Lula da Silva de uma forma quase ostensiva. Depois das mesuras no encontro do G20, em Londres no início deste mês, afirmou, em entrevista à rede CNN, ontem, que deseja ser "parceiro" do brasileiro.
A estratégia obamista também abrange a tentativa de mudar a abordagem histórica entre Washington e a ditadura cubana, fonte de atrito constante para os EUA na região. Cuba é o único país americano excluído da cúpula. O Brasil talvez possa ajudar, sem ser decisivo, na interlocução com o regime dos Castro.
Simbolicamente, Obama cumpriu nesta semana, que antecede a cúpula regional, sua promessa de abolir a restrição a viagens e remessas de dinheiro de cubano-americanos para a ilha caribenha. Mas tem sido cauteloso ao lidar com o tema do embargo, muito sensível para uma parcela, cada vez mais restrita, do eleitorado americano.
O presidente Obama deveria aproveitar o momento e eliminar essa hipócrita restrição comercial de 47 anos, que só faz aumentar a coesão do regime, enquanto castiga a população cubana. Com 11 milhões de habitantes e um PIB de US$ 55 bilhões, comparável ao do Equador, Cuba tem importância econômica negligenciável na América Latina. Seu peso geoestratégico esvaiu-se há duas décadas, com o fim da Guerra Fria.
Comércio, infraestrutura, energia, imigração, cooperação contra o narcotráfico são os temas que realmente importam no continente. Mas, para que a agenda possa avançar com maior velocidade, é preciso que os EUA encerrem de vez o contencioso com Cuba -o que não implica abrir mão, evidentemente, de condenar as violações sistemáticas aos direitos humanos patrocinadas pela ditadura cubana.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

'Divisão na região é maior do que divergências com EUA'

O Estado de São Paulo

16/04/2009

Fernando Dantas
Opinião é de Moisés Naím, que debateu ontem sobre as relações do governo Obama com a América Latina
Às vésperas da Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, de 17 a 19 de abril, as divisões internas da América Latina são mais profundas do que a polaridade entre a região e os EUA, na visão de Moisés Naím, editor da publicação Foreign Policy Magazine e especialista em relações internacionais.
Durante debate ontem sobre o governo Obama e a América Latina, no Fórum Econômico Mundial na América Latina, no Rio, Naím e Peter Hakim, presidente do centro de estudos Diálogo Interamericano, traçaram um cenário otimista sobre as perspectivas da relação dos EUA com a região. Neste processo, o Brasil pode assumir a liderança dos países latino-americanos que têm um modelo baseado na economia de mercado e na democracia, e mais aberto à globalização.
Para Naím, o presidente Venezuela, Hugo Chávez, lidera o grupo de nações latino-americanas "que tem uma forma completamente diferente de olhar como se trata o setor privado, a democracia e os investidores estrangeiros, e como se lida com a pobreza, com os EUA e com a globalização". Ele coloca nesse grupo, além da Venezuela, Argentina Nicarágua, Cuba, Equador, Bolívia, Paraguai, Honduras e países do Caribe.
O Brasil, por sua vez, está alinhado no grupo de México, Colômbia, Chile e Peru. Para Naím, que é venezuelano, "os brasileiros são ambíguos política e retoricamente, e muito pragmáticos na realidade". Assim, continua, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aplaude e admire Chávez, "mas o que ele faz no Brasil é completamente diferente do que Chávez faz na Venezuela".
Ele nota que esses países, alinhados à economia de mercado, são mais importantes que o grupo liderado por Chávez. O Brasil, disse, "está jogando nas grandes divisões dos assuntos globais, em temas como meio ambiente, comércio internacional e crises financeiras". Ele cita o México como outro com importância global.
Naím acha que o papel do Brasil na América Latina deveria ser o de "representante de um modelo bem sucedido", já que consegue reduzir a pobreza e a desigualdade e, simultaneamente, ser atraente para os investidores estrangeiros e ser um ator no cenário global, nas negociações importantes.
Hakim, por sua vez, considera que quase todos os temas da relação entre a América Latina e os EUA estão bem encaminhados nesse início de governo do presidente Barack Obama. Ele dá como exemplo Cuba e a questão da imigração, em que Obama já está tomando passos concretos para relaxar a visão restritiva que prevaleceu, por parte dos EUA nas últimas décadas. A relação com o México também avançou. No lado positivo, Hakim também citou a boa "linguagem corporal" dos encontros entre Obama e Lula. O ponto de preocupação é o comércio internacional, no qual Obama já irritou os mexicanos na questão do tráfico de caminhoneiros e não deu sinais de ratificar o tratado de livre-comércio com a Colômbia.