Direita de raiz Folha de São Paulo 16 de janeiro de 2011
De que água bebe o conservadorismo americano
RESUMO
A princípio uma reação ao Estado de bem-estar social e à crescente permissividade moral, o conservadorismo nos EUA ganhou novas feições nos anos 80 e hoje se impõe como força política. Origens e situação atual dessas ideias são objeto de estudos e de libelos direitistas que associam o Estado à morte e à destruição.
KIM PHILLIPS-FEIN
tradução PAULO MIGLIACCI
O DEPUTADO JOHN BOEHNER não ia gostar nada de ouvir, mas o velho aforismo de Karl Marx sobre a história primeiro acontecer como tragédia, depois como farsa, raras vezes foi tão válido quanto no caso do atual movimento conservador nos EUA.
A vitória republicana em novembro, que conduziu Boehner à presidência da Câmara dos Deputados dos EUA, foi vista como uma reversão de tendências históricas, mas na verdade se enquadra na revolta conservadora, que já dura meio século, contra a própria ideia de governo. Há 50 anos, quando Ronald Reagan percorria os EUA fazendo discursos bancados pela General Electric, denunciava a crescente carga tributária como um equivalente do socialismo; já os leais membros da John Birch Society1 tinham certeza de que o presidente Dwight D. Eisenhower era comunista.
É claro que os ultraconservadores dos anos 50 estavam errados; os progressistas de meados do século passado eram caçadores de "vermelhos", e nada poderia estar mais distante de suas ambições do que o socialismo. Mas, pelo menos quando Reagan se batia em câmaras de comércio regionais e os membros da John Birch Society faziam suas intermináveis discussões, a alíquota mais elevada do imposto de renda era de quase 90%, a "Guerra contra a Pobreza" estava para começar e os planos públicos de saúde em breve passariam a atender idosos e pobres. Em outras palavras, existia um governo ativo do qual os conservadores podiam reclamar.
Hoje, as fulminações da direita sobre a expansão do Estado parecem imensa e insanamente desproporcionais diante das mornas ações do Partido Democrata, cujos membros não conseguem concordar nem mesmo sobre a revogação dos cortes de impostos decretados por George W. Bush. Quanto mais insípidos os progressistas se tornavam, mais vigorosas e malévolas eram as denúncias da direita.
ESTILO PARANOICO Na célebre descrição do historiador Richard Hofstadter (1916-70), os "pseudoconservadores" seriam habitantes de um mundo irreal, adeptos de um "estilo paranoico" de política. Seriam, na descrição de Hofstadter, almas perdidas, em decadência, desorientadas no mar da economia de consumo de massa que surgia nos EUA da metade do século 20, que fizeram de sua ira econômica um ataque irracional aos intelectuais e progressistas que consideravam responsáveis por seus problemas. Seriam vítimas do sonho americano, que não sabiam "quem ou o que são, nem a que pertencem, ou o que lhes pertence".
De sua busca desesperada por status surgiu uma notável propensão a uma política maniqueísta do bem contra o mal, que tachou a elite de Washington como a incansável perseguidora das virtudes originárias das "small towns" americanas, as cidadezinhas espalhadas pelo interior do país.
Desde que Hofstadter escreveu seus ensaios, os historiadores vêm criticando seu tom desdenhoso e sua interpretação do conservadorismo como algo parecido com uma doença mental; seus detratores argumentam que ele errou seriamente ao dar uma imagem da direita como uma força em declínio na vida americana bem no momento em que ela estava prestes a conquistar o poder. Apesar das críticas, Hofstadter capturou, como poucos voltariam a fazer depois dele, a estranheza do movimento conservador e a maneira como este consegue criar a imagem de um país sombrio, sempre à beira de uma revolução ou algo pior. Será que os scholars modernos fariam melhor?
ECONOMIA E MORAL Veja-se o caso de David Courtwright, autor de "No Right Turn" ["Proibido Virar à Direita", Harvard University Press, 320 págs., R$ 68,59]. Ao contrário dos muitos historiadores do conservadorismo que não vão além da eleição de Ronald Reagan (1911-2004), como se esta representasse o fim da história, Courtwright vem até o presente. Seu livro defende o argumento de que não houve uma verdadeira revolução conservadora na política americana. Os economistas conservadores "fracassaram em seu objetivo último, o de desarticular o New Deal e manter os gastos federais sob controle", e os conservadores moralistas não foram capazes de "remover a permissividade de uma cultura saturada de valores dos anos 60".
Entre as duas vertentes, porém, a direita econômica chegou mais perto de conseguir o que desejava. O ethos do mercado se enquadrava bem à sociedade permissiva que surgiu das mudanças sociais dos anos 60. O historiador sugere que, no início do século 21, os americanos tornaram-se "claramente mais tolerantes, profanos em termos de vocabulário, obesos e desleixados", enquanto "as parcerias sexuais se tornaram um carrossel. Quem não gostar do cavalinho em que está montado pode descer e esperar um cavalinho melhor na próxima volta".
Os conservadores venceram nas urnas, mas o partido do livre mercado não estava lá muito interessado em reverter a revolução sexual e a revolução moral. Nas palavras de Courtwright, "quando os brancos evangélicos desencantados desceram do ônibus do Partido Democrata e subiram no do Partido Republicano, descobriram que o destino era a praça do Mercado, e não a rua da Igreja". Os conservadores, alega o autor, procuram unir os entusiastas do livre mercado aos tradicionalistas cristãos -um problema insolúvel, pois o capitalismo tende a erodir os valores caros aos conservadores religiosos.
Não existe modo de as duas vertentes do movimento conservador saírem ganhando ao mesmo tempo, e o resultado será que a direita moralista sempre resmungará contra as depredações que os empresários cometem contra a cultura, ainda que votem, gostando ou não, na direita econômica.
IRA E RESSENTIMENTO O extenso e ousado relato de Dominic Sandbrook sobre o populismo dos anos 1970 -apropriadamente intitulado "Mad as Hell" ["Fulo da Vida", Random House, 496 págs., R$ 68,70] oferece uma visão diferente sobre o tema.
Sandbrook (um historiador britânico) abre o livro contando sobre a cena do filme "Rede de Intrigas" ["Network", 1976] em que o apresentador de telejornal Howard Beale instrui o telespectador a "se levantar, ir à janela, abri-la, pôr a cabeça para fora e gritar: 'Estou fulo da vida! Chega!'". Começou no cinema, mas logo surgiram relatos sobre estudantes americanos abrindo as janelas em cidades universitárias e gritando a frase mágica. O sucesso da direita, argumenta Sandbrook, está intimamente ligado a essa ira populista mais ampla, com a repulsa a um governo distante das pessoas, a intelectuais pretensiosos e especialistas sabichões.
Sandbrook cita muitos outros exemplos. No condado de Kanawha, na Virgínia Ocidental, Alice Moore, dona de casa e mãe de quatro filhos, iniciou uma campanha contra a educação sexual nas escolas públicas locais que não demorou a se expandir e passou a incentivar o banimento de uma vasta lista de livros dos currículos escolares -da "Ilíada" a "Paraíso Perdido" e "Crime e Castigo"-, bem como poemas de Matthew Arnold e T. S. Eliot, vistos como mórbidos e deprimentes.
Não demorou para que milhares de crianças fossem mantidas em casa, em boicote às aulas; duas escolas sofreram atentados com bombas, outra com dinamite, duas pessoas foram baleadas nos piquetes e 15 bananas de dinamite explodiram nos escritórios do conselho escolar municipal poucos minutos depois do final de uma reunião (ninguém morreu).
Howard Jarvis, ex-jogador semiprofissional de beisebol, viajava pela Califórnia, muitas vezes discursando para "meia dúzia de pessoas numa sala de estar suburbana", a fim de construir um movimento pela revogação de impostos sobre imóveis. As questões eram diferentes conforme o lugar, mas a ira e o ressentimento eram os mesmos.
O livro de Sandbrook capta um lado dos anos 70 -a fúria amorfa que parecia permear o país. Mas não se sai tão bem ao evocar o clima de depressão e desilusão da época, nem ao demonstrar as maneiras pelas quais o liberalismo frustrou as esperanças da geração do "baby boom". Por uma geração, os americanos se acostumaram a esperar que, ao se tornarem adultos, teriam casa própria; que a cada ano mais pessoas teriam planos de saúde e de pensão; que as condições de vida melhorariam continuamente. A experiência dos anos 70 sugere que esse otimismo não tinha o menor fundamento.
Ainda que Sandbrook discuta as dificuldades financeiras, não chega a descrever o crescente desespero das vítimas econômicas da década. O livro oferece pequenas e impressionantes vinhetas da ascensão de uma insurgência populista, mas não explica como ou por que essa insurgência resultou num movimento conservador que realinhou a política americana por uma geração inteira.
E sua descrição da energia frenética dos anos 70 não capta algo que continua a assombrar nossa política: a forma com que sentimentos de decepção e perda -não apenas raiva- deram impulso para a virada do país à direita.
RELIGIÃO E ECONOMIA Será que esses relatos históricos oferecem alguma luz para entender o atual conservadorismo redivivo? Para muitos dos polemistas do conservadorismo contemporâneo, não existe distinção clara entre religião e economia. Eles veem um mundo econômico impregnado de valores e significado moral, e a fé como inextricavelmente associada ao capitalismo.
Para os mais temerosos desses conservadores, o Estado não está apenas passando dos limites, sufocando a economia ou limitando a livre-iniciativa -o Estado também é parte daquilo que a direita que trombeteia valores define como uma cultura da morte. O governo não pode ser representativo ou democrático; trata-se de uma força vampiresca e malévola, que faz do povo sua presa.
Essa visão melodramática do Estado malvado e parasitário transcende as divisões claras que Courtwright sugere. E não se trata apenas de palavrório populista, já que, para eles, um levante popular poderia, pelo menos em teoria, restaurar a devida ordem política.
Dois livros claramente dirigidos aos adeptos do movimento Tea Party demonstram até que ponto a direita atual adere a essa visão quase apocalíptica do governo.
ESTADO SOCIALISTA Ainda que evoque de forma menos sombria o mito fundador da nova direita, "The New Reagan Revolution" ["A Nova Revolução Reagan", St Martins Press, 320 págs., R$ 59,52], de Michael Reagan -filho adotivo do 40º presidente dos EUA- abandona a lendária bonomia de seu pai e oferece um relato inflamado do panorama político americano atual: "Como previu meu pai, vivemos hoje num Estado socialista".
Michael Reagan alerta para o nebuloso conluio inspirado pelas ideias do casal de sociólogos e ativistas Richard Cloward (1926-2001) e Frances Fox Piven, pesquisadores da pobreza e defensores da redistribuição de renda e da extensa regulação governamental sobre a economia. "A agenda da 'mudança climática'", escreve ele, "pode bem ser o maior, o mais rico e o mais sorrateiro de todos os tentáculos do polvo Cloward-Piven." Muito embora o jovem Reagan descreva um país à beira do colapso, ele argumenta que o retorno à ortodoxia de seu pai pode salvá-lo. E exorta os simpatizantes do Tea Party a permanecerem no Partido Republicano, em vez de fundarem uma terceira agremiação.
MORTE Mais sistemático e também mais tenebroso, "Death by Liberalism" ["Morte pelo Progressismo", Harper USA, 288 págs., R$ 59,52], de J. R. Dunn, indica até que ponto a situação se deteriorou em alguns quadrantes da direita atual.
Dunn não é um teórico da conspiração. É um descendente intelectual de Friedrich von Hayek, cujo "O Caminho da Servidão" (1944) apresenta o argumento de que os esforços progressistas por reformas resultariam inevitavelmente na criação de um Estado totalitário, pela necessidade de planejamento central, apesar das boas intenções dos reformistas. Dunn, no entanto, adota abordagem muito mais direta, argumentando que "o modelo progressista mata". Os progressistas, diz ele, "estão entre os assassinos em larga escala mais ativos de nossa época, e superam com facilidade, em número de vítimas, a maioria das doenças fatais e o terrorismo".
No final dos anos 90, estudiosos franceses publicaram o "Livro Negro do Comunismo", no qual tentaram calcular o total de vítimas dos regimes comunistas no mundo. "Death by Liberalism" tenta fazer o mesmo com a nossa versão, mais amena, da esquerda.
DEMOCÍDIO De que modo Dunn consegue quantificar o custo em vidas de uma fé política? Para começar, inclui todas as pessoas assassinadas nos EUA nos 40 anos que se seguiram às decisões da Corte Suprema que concederam aos acusados de crimes o direito a representação legal (entre outros direitos) -foram 263.568 pessoas mortas "pelo progressismo", caso você tenha curiosidade em saber.
Também conta todos os mortos por malária, doença que, segundo Dunn, teria sido erradicada, não fosse a insana cruzada da bióloga Rachel Carson (1907-64) contra o inseticida DDT.
A regulamentação das emissões de poluentes por automóveis -que tornaram desejáveis carros mais leves- resultou em algo entre 41,6 mil e 124,8 mil mortes, já que as colisões que envolvem carros menores tendem a ser mais fatais do que as que envolvem jipes militares como o Hummer (pelo menos para quem estiver dentro de um Hummer).
E, claro, a contagem de vítimas fatais só pode disparar se considerarmos os "milhões de crianças não nascidas" que foram assassinadas pelo aborto.
No final, chega a uma contagem de entre 400 mil e 500 mil americanos -ele deixa de fora os bebês não nascidos-, e os define como vítimas de um "democídio", ou seja, destruição sistemática de vidas humanas pelo Estado.
Não seria preciso dizer que essa abordagem padece de diversos problemas lógicos. Mas o livro de Dunn é significativo porque aponta para um fenômeno político mais amplo, que vai além dos termos precários de sua argumentação: a infusão de uma moralidade severa com ideias libertárias e antigovernamentais.
O combate ao aborto não é mais apenas uma mobilização entre os cristãos -tornou-se também uma campanha libertária contra o poder do Estado. A regulação governamental não se restringe ao mercado -é, literalmente, uma questão de vida ou morte. O senador republicano Barry Goldwater (1909-98) exortava seus seguidores a estarem dispostos a morrer para proteger a liberdade. Para Dunn, se você não lutar pela liberdade, vai morrer. Os progressistas bem intencionados estão prestes a te pegar e te derrubar à bala.
LIMITAÇÕES Muita tinta foi derramada para descrever o moderno movimento conservador como uma coalizão irrequieta e desgostosa, criada mais pela oposição ao comunismo e ao progressimo do que por uma visão de mundo própria. Embora haja certa dose de verdade nessa caracterização, o livro de Dunn sugere as limitações inerentes ao movimento.
Para quem é de direita, a cruzada contra o governo está permanentemente associada à necessidade de proteger um mundo ordenado pelo divino. Mercado e igreja são companheiros próximos numa visão que reprova todo esforço consciente e coletivo para construir uma sociedade.
O que torna incomum alguém como Dunn não é sua dedicação apaixonada, e sim a ausência de qualquer visão positiva. Ele não escreve em nome do esforço de defender um mundo em perigo, mas simplesmente para expressar oposição a um Estado que é visto como destinado à destruição. Não há valores familiares ou verdades cristãs como os invocados por Courtwright. O governo parece ter se tornado não só precursor do despotismo, mas também do homicídio em massa, uma visão mais bizarra e mais extrema do que as que se leem nos relatos históricos de Courtwright ou Sandbrook.
Para compreender como o movimento conservador atual transformou um ponto de vista minoritário -que enxerga o Estado como uma violenta ave de rapina, tal como Hofstadter descreveu em meados do século 20- em uma sonora palavra de ordem, não basta ler sobre a direita -é preciso ir até a fonte.
Nota do tradutor
1. Associação de extrema direita nos Estados Unidos que defende a limitação da atuação do Estado e medidas "anticomunistas", entre outros pontos.
Entre as duas vertentes, a direita econômica chegou mais perto de conseguir o que desejava. O ethos do mercado se enquadrava bem à sociedade permissiva que surgiu das mudanças sociais dos anos 60
Para os mais temerosos desses conservadores, o Estado não está apenas passando dos limites, sufocando a economia ou limitando a livre-iniciativa -o Estado também é parte daquilo que a direita define como uma cultura da morte
Para a direita, a cruzada contra o governo está associada à necessidade de proteger um mundo ordenado pelo divino. Mercado e igreja são companheiros numa visão que reprova todo esforço coletivo para construir uma sociedade
domingo, 16 de janeiro de 2011
sábado, 15 de janeiro de 2011
Direito a memoria na Espanha
ELPAIS.com Babelia 23 de 38 en Babelia anterior siguiente REPORTAJE: PENSAMIENTO
Perdón e inscripción
La Ley de Memoria Histórica no suscitó un debate profundo sobre aspectos como el duelo y la melancolía
CELIA AMORÓS 15/01/2011
En España la ley de la memoria histórica no ha llegado a suscitar un debate de ideas profundo y riguroso. Sin embargo, su enjundia y sus implicaciones requieren una seria reflexión interdisciplinar. Una reconstrucción histórica de la retícula de conceptos implicados en este género de memoria: perdón, olvido, rencor, venganza, compensación, justicia, clemencia... Freud instituyó una distinción entre los conceptos de duelo y melancolía que puede ser pertinente en este contexto. Para el fundador del psicoanálisis, el duelo hacía referencia a una aflicción del sujeto por la pérdida de un objeto amado en el cual este sujeto era consciente de la dimensión de su pérdida y entraba en un proceso de elaboración psíquica de la misma orientado a cerrar la herida que le habría producido.
La noticia en otros webs
webs en español
en otros idiomas
En la melancolía, por el contrario, el individuo se instala en un estado de ánimo en el que no puede salir de su desolación porque le faltan los contornos precisos del referente de su pena. El autor de Duelo y melancolía relacionaba el estado de ánimo melancólico con un "registro de objetos perdidos" que no se recuperarán jamás porque, en rigor, se diluye para el sujeto la precisa entidad y significación de los mismos. No puede identificarlos y, en consecuencia, se debate en un proceso que Hegel llamaría de "mala infinitud"... Pues bien, es importante para quienes han sufrido desgarradoras pérdidas, si es que han de entrar en un proceso de duelo y no verse sumidos para siempre en la melancolía, que el objeto perdido se inscriba simbólicamente en orden a contrastarlo emocionalmente. La posibilidad del perdón se encuentra de algún modo íntimamente unida a esta inscripción que posibilita el duelo. Si la devastadora melancolía no ha de tener la última palabra, hay que relacionar al muerto con su sepultura que, como lo afirma Hegel, lo rescata de las garras devastadoras de la mera naturaleza y lo promociona al nivel de la conciencia y de la cultura. El enterramiento de los muertos se considera significativamente un índice en el proceso de hominización. Para consolarse en lo posible de la muerte del difunto hay que saber al menos dónde está o dejó de estar lo que debería estar: recorrer los contornos de su hueco. Sólo así puede reconducirse la mala infinitud a la finitud y la melancolía transmutarse en un proceso de duelo.
Gilles Deleuze afirmaba que en las sociedades etnológicas acéfalas la deuda debe ser grabada en los cuerpos para volver a los hombres capaces de alianza. Así, pues, para conmutar ofensas hay que constatar y contrastar inscripciones. Es como si nos encontráramos con leyes psíquicas y culturales objetivas que los decretos humanos, aunque invoquen razones políticas pertinentes en determinado momento histórico, no pueden conculcar a su arbitrio. El punto final -Alfonsín en Argentina debió aprenderlo amargamente- no se puede poner donde uno quiera. Sólo lo posibilita o lo impone la estructura del texto.
Amelia Valcárcel. La memoria y el perdón. Herder. Barcelona, 2010. 142 páginas. 12,90 euros
Perdón e inscripción
La Ley de Memoria Histórica no suscitó un debate profundo sobre aspectos como el duelo y la melancolía
CELIA AMORÓS 15/01/2011
En España la ley de la memoria histórica no ha llegado a suscitar un debate de ideas profundo y riguroso. Sin embargo, su enjundia y sus implicaciones requieren una seria reflexión interdisciplinar. Una reconstrucción histórica de la retícula de conceptos implicados en este género de memoria: perdón, olvido, rencor, venganza, compensación, justicia, clemencia... Freud instituyó una distinción entre los conceptos de duelo y melancolía que puede ser pertinente en este contexto. Para el fundador del psicoanálisis, el duelo hacía referencia a una aflicción del sujeto por la pérdida de un objeto amado en el cual este sujeto era consciente de la dimensión de su pérdida y entraba en un proceso de elaboración psíquica de la misma orientado a cerrar la herida que le habría producido.
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En la melancolía, por el contrario, el individuo se instala en un estado de ánimo en el que no puede salir de su desolación porque le faltan los contornos precisos del referente de su pena. El autor de Duelo y melancolía relacionaba el estado de ánimo melancólico con un "registro de objetos perdidos" que no se recuperarán jamás porque, en rigor, se diluye para el sujeto la precisa entidad y significación de los mismos. No puede identificarlos y, en consecuencia, se debate en un proceso que Hegel llamaría de "mala infinitud"... Pues bien, es importante para quienes han sufrido desgarradoras pérdidas, si es que han de entrar en un proceso de duelo y no verse sumidos para siempre en la melancolía, que el objeto perdido se inscriba simbólicamente en orden a contrastarlo emocionalmente. La posibilidad del perdón se encuentra de algún modo íntimamente unida a esta inscripción que posibilita el duelo. Si la devastadora melancolía no ha de tener la última palabra, hay que relacionar al muerto con su sepultura que, como lo afirma Hegel, lo rescata de las garras devastadoras de la mera naturaleza y lo promociona al nivel de la conciencia y de la cultura. El enterramiento de los muertos se considera significativamente un índice en el proceso de hominización. Para consolarse en lo posible de la muerte del difunto hay que saber al menos dónde está o dejó de estar lo que debería estar: recorrer los contornos de su hueco. Sólo así puede reconducirse la mala infinitud a la finitud y la melancolía transmutarse en un proceso de duelo.
Gilles Deleuze afirmaba que en las sociedades etnológicas acéfalas la deuda debe ser grabada en los cuerpos para volver a los hombres capaces de alianza. Así, pues, para conmutar ofensas hay que constatar y contrastar inscripciones. Es como si nos encontráramos con leyes psíquicas y culturales objetivas que los decretos humanos, aunque invoquen razones políticas pertinentes en determinado momento histórico, no pueden conculcar a su arbitrio. El punto final -Alfonsín en Argentina debió aprenderlo amargamente- no se puede poner donde uno quiera. Sólo lo posibilita o lo impone la estructura del texto.
Amelia Valcárcel. La memoria y el perdón. Herder. Barcelona, 2010. 142 páginas. 12,90 euros
Igualdad y diversidad
O blog de Gargarella dispõe pelo endereço eletrônico http://www.minjusticia-ddhh.gov.ec/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=344&Itemid=190
diversas obras do Ministério da Justiça do Equador. Dentre delas que pode ser baixada está a obra sobre Igualdad y Diversidad com autores sociologos e constitucionalistas de prestigio internacional
diversas obras do Ministério da Justiça do Equador. Dentre delas que pode ser baixada está a obra sobre Igualdad y Diversidad com autores sociologos e constitucionalistas de prestigio internacional
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Dicionário de Teoria e Filosofia do Direito
Saiu pela LTr 75 o Dicionário de Teoria e Filosofia do direito tendo como organizador o Professor Alexandre Travessoni. O Professor José Ribas Vieira contribuiu com o verbete "Jurisdição Constitucional". Divulguem e adquiram!
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Cidadania nos Estados Unidos
Republicanos miram filhos de ilegais Folha de São Paulo de 7 de janeiro de 2011
Legislativos de cinco Estados lançam movimento para mudar regras para concessão da cidadania americana
Emenda da Constituição americana diz que quem nasce nos EUA é cidadão do país; intenção é levar debate à Suprema Corte
Doug Mills/"The News York Times"
Obama cumprimenta William Daley , seu novo chefe de gabinete, na Casa Branca; Pete Rouse, que deixa o cargo, aplaude
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON
Representantes de cinco Legislativos estaduais dos EUA deram a largada nesta semana a um movimento para negar cidadania americana a filhos de ilegais e até de legais com vistos temporários nascidos no país.
Republicanos conservadores de Arizona, Pensilvânia, Geórgia, Oklahoma e Carolina do Sul apresentaram em Washington anteontem dois projetos de lei sobre o tema que serão em breve introduzidos em assembleias de ao menos 14 Estados.
O primeiro cria uma nova definição de cidadania estadual, que excluiria bebês nascidos nos EUA que têm ambos os pais ilegais.
O segundo é um acordo entre Estados, que concordariam em emitir certidões de nascimento diferenciadas para bebês cujos pais não comprovem status legal.
Os conservadores fizeram coincidir a data de apresentação das leis com a inauguração do novo Congresso.
O movimento já foi acolhido por correligionários na Câmara dos Representantes, controlada pela oposição.
Steve King (Iowa), que chefiará a subcomissão de imigração da Comissão Judiciária da Casa, disse que introduzirá assim que começarem os trabalhos legislação para negar cidadania a quem nasce nos EUA mas tem pai e mãe ilegais no país.
Daryl Metcalfe, deputado estadual da Pensilvânia que participou da apresentação, disse que "quer acabar com a invasão de ilegais que está tendo efeitos tão negativos em nossos Estados".
Para Daniel Verdin (senador estadual da Carolina do Sul), a imigração ilegal é um "mal de proporções épicas".
Vários grupos latinos e de direitos civis reagiram. "A intenção real é criar dois níveis de cidadãos e isso é controverso e decididamente antiamericano", disse Wade Henderson, presidente da Conferência de Liderança em Direitos Civis e Humanos.
Os conservadores sabem que as leis não teriam efeito imediato e seriam questionadas quanto a sua constitucionalidade. A 14ª emenda da Constituição diz expressamente que quem nasce nos EUA é cidadão do país.
Além disso, cidadania estadual não traz embutidos direitos ou privilégios especiais; assim, mesmo nos Estados onde a lei passar os filhos de ilegais não sofreriam efeitos práticos.
A intenção do movimento é justamente levar a questão até a Suprema Corte, e lá tentar redefinir o conceito de cidadania.
Para analistas, o objetivo é difícil de alcançar. "Desde o fim do século 19 a Suprema Corte diz claramente que quem nasce nos EUA é americano", afirmou Erwin Chemerinsky, da escola de direito da Universidade da Califórnia. "Seria uma mudança dramática na lei, o que é muito improvável."
Legislativos de cinco Estados lançam movimento para mudar regras para concessão da cidadania americana
Emenda da Constituição americana diz que quem nasce nos EUA é cidadão do país; intenção é levar debate à Suprema Corte
Doug Mills/"The News York Times"
Obama cumprimenta William Daley , seu novo chefe de gabinete, na Casa Branca; Pete Rouse, que deixa o cargo, aplaude
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON
Representantes de cinco Legislativos estaduais dos EUA deram a largada nesta semana a um movimento para negar cidadania americana a filhos de ilegais e até de legais com vistos temporários nascidos no país.
Republicanos conservadores de Arizona, Pensilvânia, Geórgia, Oklahoma e Carolina do Sul apresentaram em Washington anteontem dois projetos de lei sobre o tema que serão em breve introduzidos em assembleias de ao menos 14 Estados.
O primeiro cria uma nova definição de cidadania estadual, que excluiria bebês nascidos nos EUA que têm ambos os pais ilegais.
O segundo é um acordo entre Estados, que concordariam em emitir certidões de nascimento diferenciadas para bebês cujos pais não comprovem status legal.
Os conservadores fizeram coincidir a data de apresentação das leis com a inauguração do novo Congresso.
O movimento já foi acolhido por correligionários na Câmara dos Representantes, controlada pela oposição.
Steve King (Iowa), que chefiará a subcomissão de imigração da Comissão Judiciária da Casa, disse que introduzirá assim que começarem os trabalhos legislação para negar cidadania a quem nasce nos EUA mas tem pai e mãe ilegais no país.
Daryl Metcalfe, deputado estadual da Pensilvânia que participou da apresentação, disse que "quer acabar com a invasão de ilegais que está tendo efeitos tão negativos em nossos Estados".
Para Daniel Verdin (senador estadual da Carolina do Sul), a imigração ilegal é um "mal de proporções épicas".
Vários grupos latinos e de direitos civis reagiram. "A intenção real é criar dois níveis de cidadãos e isso é controverso e decididamente antiamericano", disse Wade Henderson, presidente da Conferência de Liderança em Direitos Civis e Humanos.
Os conservadores sabem que as leis não teriam efeito imediato e seriam questionadas quanto a sua constitucionalidade. A 14ª emenda da Constituição diz expressamente que quem nasce nos EUA é cidadão do país.
Além disso, cidadania estadual não traz embutidos direitos ou privilégios especiais; assim, mesmo nos Estados onde a lei passar os filhos de ilegais não sofreriam efeitos práticos.
A intenção do movimento é justamente levar a questão até a Suprema Corte, e lá tentar redefinir o conceito de cidadania.
Para analistas, o objetivo é difícil de alcançar. "Desde o fim do século 19 a Suprema Corte diz claramente que quem nasce nos EUA é americano", afirmou Erwin Chemerinsky, da escola de direito da Universidade da Califórnia. "Seria uma mudança dramática na lei, o que é muito improvável."
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Entrevista de J. Elster
Ideas Política y Economía 04/01/11 Elegir, ese misterio
Mucho antes del boom de las neurociencias, Elster trazó una "teoría de la elección racional", para explicar por qué elegimos algo, desde tener hijos o dar o no propina. Aquí, habla del peso de las emociones en la política y del "oscurantismo" en las ciencias sociales.
POR FEDERICO KUSKO
Etiquetado como: Jon Elster Salvo por su altura tan nórdica y por su mirada extranjera, el noruego Jon Elster no llama mucho la atención. Su acento cargado de aire de tierras lejanas lo camufla como un turista más entre las hordas de visitantes que, con cámaras y billeteras abultadas en mano, cruzan a diario la ciudad como si fuera un tablero de ajedrez. Nadie que se lo encontrara en la Plaza de Mayo o lo viera en una mesa del café Tortoni –sólo por mencionar dos de los lugares más extranjerizados de Buenos Aires– sospecharía que este hombre amante del jazz (“sólo de cierto período: de 1937 a 1942”), fanático de la arquitectura románica y lector voraz de novelistas franceses como Proust o Stendhal es toda una eminencia dentro del campo heterogéneo, confuso y sin límites precisos de las ciencias sociales.
Pero lo es: mucho antes de que los neurocientíficos y los escáneres sondearan hasta el rincón más íntimo del cerebro, este investigador del Collège de France y profesor de la Universidad de Columbia en Estados Unidos desplegó un vasto arsenal teórico para abordar e intentar comprender lo muchas veces incomprensible: por qué hacemos lo que hacemos. Así, como buen arquitecto, construyó todo un edificio conceptual –al que bautizó “teoría de la elección racional”– a partir de los aportes de los más diversos campos como la psicología, la economía del comportamiento, las ciencias políticas, la historia, la filosofía y hasta la biología.
Con tiempo y paciencia, examinó las bases del egoísmo y el altruismo, inspeccionó el rol de las creencias y cómo éstas se forman colectivamente, estudió las emociones, deseos y oportunidades, la confianza, la toma colectiva de decisiones, el autoengaño, los códigos de honor, el funcionamiento de las organizaciones y hasta las normas sociales de la propina.
Hipercrítico incluso con sus propias teorías –“me parece que la teoría de la elección racional tiene menos capacidad explicativa de la que yo suponía. Sin embargo, esta teoría es un elemento valioso de mi caja de herramientas conceptuales”, confiesa–, este investigador que pasó por Buenos Aires para ser investido como Doctor Honoris Causa por la Universidad Torcuato Di Tella advierte –preocupado y sin temor al choque– el avance de cierta nube oscurantista sobre las ciencias sociales.
“En los últimos años se puede apreciar que el oscurantismo invadió este campo de estudios. No hay respeto por la argumentación y por la evidencia –cuenta el autor de La explicación del comportamiento social: más tuercas y tornillos para las ciencias sociales (Gedisa), versión ampliada, revisada y autocrítica del ya clásico Tuercas y tornillos: una introducción a los conceptos básicos de las ciencias sociales –. Hay cierta renuencia a hacer de abogado del diablo y ser crítico a la corriente que uno pertenece: estructuralismo, funcionalismo, posmodernismo, poscolonialismo, psicoanálisis, marxismo, deconstruccionismo, en definitiva, seudoteorías. Ninguna de estas corrientes tiene respeto por la evidencia. No enfrentan ni se hacen una pregunta fundamental: ‘¿Cómo sabés eso?’ Simplemente, asumen. No pueden explicar cómo saben eso. Afirman que sólo hay que creerlo.”
-Después de más de 30 años de estudio del comportamiento humano, ¿diría ahora con comodidad que los seres humanos somos animales racionales?
-Definitivamente no. Al menos, no sólo eso. En mis primeros escritos de fines de los setenta y principios de los ochenta creo que estaba muy entusiasmado con este enfoque porque me parecía un buen modelo teórico para explicar cómo las personas se comportan. Sin embargo, con los años y gracias a mis investigaciones sobre fenómenos como las adicciones, me percaté de su estrechez: en lugar de explicar por qué los seres humanos hacemos lo que hacemos, explica aquello que deberíamos hacer en ciertas circunstancias. Esas situaciones ideales no se dan en todos los casos. Eso ayudó a que con el tiempo me fuera corriendo del estudio de la toma de decisiones de los individuos y pasara a preocuparme más por las tomas colectivas de decisiones.
-O sea, cambió de una aproximación de abajo-arriba al enfoque arriba-abajo.
-No exactamente. No busco entender el comportamiento individual a partir del comportamiento colectivo. Me sigue interesando el proceso a partir del cual los individuos eligen lo que terminan eligiendo: cuántos hijos tener, por ejemplo. En el caso de los grupos, me da mucha curiosidad cómo un grupo de individuos llega a una conclusión por hacer o no hacer algo. Tanto en el caso de individuos como en el de los grupos, la racionalidad es sólo una parte del proceso.
-Las emociones juegan un rol más importante del que suponemos.
-Absolutamente. Por ejemplo, cuando la Asamblea Constituyente francesa suprimió por ley las servidumbres personales y abolió el feudalismo en la noche del 4 de agosto de 1789 fue una decisión colectiva movida extremamente por las emociones: tanto por el miedo como por el entusiasmo.
-¿Eso quiere decir que el miedo no sólo paraliza?
-No. El miedo es una de las emociones más fuertes. Se puede tener miedo a lo que pasó como miedo a lo que pasará. Los delegados de la Asamblea Constituyente francesa tenían miedo de que les quemasen sus castillos y así fue como hicieron ciertas concesiones como la de abolir el feudalismo de la noche a la mañana. El miedo es una emoción muy personal. Uno puede temer una crisis financiera pero uno siente miedo si uno es afectado por tal crisis. La ira puede tener una fuerza abrumadora en la toma de decisiones como lo demostró Zinedine Zidane con su cabezazo a un adversario italiano en la final de la Copa del Mundo de 2006. A su vez, las emociones como la culpa, el desprecio y la vergüenza tienen íntimas relaciones con las normas morales y sociales.
-¿Y hay tal cosa como emociones universales?
-Las emociones son universales aunque no lo son todas. Se dice que los japoneses tienen una emoción llamada “amae” cuya traducción sería algo así como “indefensión y deseo de ser amado” que no existe en otras sociedades. Muchas veces se sugiere que el amor romántico es una invención moderna y que el sentimiento de aburrimiento es de origen reciente. “Algunas personas nunca se habrían enamorado si nunca hubiesen escuchado hablar de amor”, decía el aristócrata francés La Rochefoucauld en el siglo XVII.
-¿Y ve a la sociedad argentina como una sociedad muy emocional?
-No conozco mucho de la sociedad argentina para intentar explicarla pero me interesa. Por lo que veo y leo me fascina. Las emociones en la política argentina son más importantes que en otros países. Eso es lo que se ve desde afuera al menos. Por ejemplo, fui testigo de las procesiones por la muerte del ex presidente Néstor Kirchner. Eso no se hubiera visto en otros países. Las emociones siguen siendo un misterio. Nunca sabemos cuándo son realmente genuinas o cuándo han sido ritualizadas. Por ejemplo, lo interesante para analizar en una sociedad donde se impuso un gobierno dictatorial es por qué cierta gente se fue del país y por qué otra gente se quedó. Las emociones también pueden interferir en la adquisición óptima de información. Afectan también nuestras creencias y deseos.
-Más allá de las emociones, a la hora de distinguirnos de los animales siempre apelamos a nuestra racionalidad.
Los seres humanos queremos ser racionales, no nos gusta ser meros juguetes de fuerzas psíquicas que actúan a nuestras espaldas. No nos enorgullecen nuestras caídas en la irracionalidad. Queremos tener razones para lo que hacemos. La mayoría de las personas no quiere verse como si sólo la moviera su interés personal. Los seres humanos tenemos dos grandes motivaciones para actuar: el motivo de la ganancia material y no ser vistos únicamente movidos por el motivo de ganancia material. Nadie quiere admitir ante otros que lo único que le interesa es su ganancia personal. A veces uno no quiere admitirlo siquiera consigo mismo.
-Usted es conocido por su concepto de justicia transicional, los juicios, purgas, reparaciones que tienen lugar de la transición de un régimen político a otro, de una dictadura a la democracia, como se puede leer en su libro “Rendición de cuentas” (Katz Editores). ¿Qué lo llevó a investigar este tema?
-Me interesa cómo la percepción o idea de justicia de los individuos y las sociedades moldea o afecta su conducta. Esa idea atraviesa y está enraizada en la naturaleza humana. Soy un ferviente creyente de los valores del Iluminismo. Creo que son transculturales y transhistóricos. Muchos dicen que es mi sesgo occidental, yo digo que es universal: tratar a la gente con dignidad y respeto es un valor universal. Soy un fanático del Iluminismo. Estoy muy influenciado por los moralistas franceses como Pascal, La Fontaine, La Fayette.
-La información siempre ocupó un rol importante en la toma de decisiones. ¿Cree que este proceso cambió con la evolución de Internet?
-En la teoría de la acción racional uno actúa a partir de ciertas creencias que se consolidan a partir de cierta información que uno posee. Con la aparición de Internet el costo de la información descendió increíblemente. Eso significa que las personas deberían estar más informadas para tomar decisiones. Hay pros y contras: la información también debería ser confiable. Lo malo es que hay una tendencia a dejar que las computadoras hagan el trabajo de los seres humanos. Es algo potencialmente peligroso. En mayo de este año se produjo un crash en la Bolsa de Nueva York causado por un programa de computadora que funcionó mal. Estamos creando monstruos. El 99% del tiempo son eficientes y buenos, pero en el 1% restante pueden ser desastrosos.
-¿Sigue peleado con los sociobiólogos?
-Mucho no me quieren. Ver a la sociedad como un superorganismo es una falacia y un reduccionismo crudo que se observa también cuando se intenta explicar el comportamiento en términos biológicos. Por ejemplo, los intentos de explicar el comportamiento político en función de cierto imperativo territorial verificado en ciertos animales. O que las prácticas de fisicoculturismo pueden explicarse como resultado de la selección sexual, análoga a las plumas del pavo real o los cuernos de los ciervos. O las explicaciones de la sociobiología y la psicología evolutiva que sostienen que la depresión posparto en las mujeres evolucionó como una herramienta de negociación.
-Su trabajo tiene muchos puntos de contacto con neurocientíficos. ¿Cómo se lleva con ellos?
-Sigo muy de cerca esas investigaciones, pero con prudencia. Soy algo escéptico. Me parece que hay un entusiasmo prematuro. Las elecciones que tomamos son actos complejos producto de la interacción entre nuestras creencias y deseos. Y que yo sepa, un escáner puede detectar muchas cosas en el cerebro pero por ahora es incapaz de rastrear o identificar aquello en lo que creemos.
FICHA
La explicación del comportamiento social...
Jon Elster
GEDISA
506 págs.
$144
Mucho antes del boom de las neurociencias, Elster trazó una "teoría de la elección racional", para explicar por qué elegimos algo, desde tener hijos o dar o no propina. Aquí, habla del peso de las emociones en la política y del "oscurantismo" en las ciencias sociales.
POR FEDERICO KUSKO
Etiquetado como: Jon Elster Salvo por su altura tan nórdica y por su mirada extranjera, el noruego Jon Elster no llama mucho la atención. Su acento cargado de aire de tierras lejanas lo camufla como un turista más entre las hordas de visitantes que, con cámaras y billeteras abultadas en mano, cruzan a diario la ciudad como si fuera un tablero de ajedrez. Nadie que se lo encontrara en la Plaza de Mayo o lo viera en una mesa del café Tortoni –sólo por mencionar dos de los lugares más extranjerizados de Buenos Aires– sospecharía que este hombre amante del jazz (“sólo de cierto período: de 1937 a 1942”), fanático de la arquitectura románica y lector voraz de novelistas franceses como Proust o Stendhal es toda una eminencia dentro del campo heterogéneo, confuso y sin límites precisos de las ciencias sociales.
Pero lo es: mucho antes de que los neurocientíficos y los escáneres sondearan hasta el rincón más íntimo del cerebro, este investigador del Collège de France y profesor de la Universidad de Columbia en Estados Unidos desplegó un vasto arsenal teórico para abordar e intentar comprender lo muchas veces incomprensible: por qué hacemos lo que hacemos. Así, como buen arquitecto, construyó todo un edificio conceptual –al que bautizó “teoría de la elección racional”– a partir de los aportes de los más diversos campos como la psicología, la economía del comportamiento, las ciencias políticas, la historia, la filosofía y hasta la biología.
Con tiempo y paciencia, examinó las bases del egoísmo y el altruismo, inspeccionó el rol de las creencias y cómo éstas se forman colectivamente, estudió las emociones, deseos y oportunidades, la confianza, la toma colectiva de decisiones, el autoengaño, los códigos de honor, el funcionamiento de las organizaciones y hasta las normas sociales de la propina.
Hipercrítico incluso con sus propias teorías –“me parece que la teoría de la elección racional tiene menos capacidad explicativa de la que yo suponía. Sin embargo, esta teoría es un elemento valioso de mi caja de herramientas conceptuales”, confiesa–, este investigador que pasó por Buenos Aires para ser investido como Doctor Honoris Causa por la Universidad Torcuato Di Tella advierte –preocupado y sin temor al choque– el avance de cierta nube oscurantista sobre las ciencias sociales.
“En los últimos años se puede apreciar que el oscurantismo invadió este campo de estudios. No hay respeto por la argumentación y por la evidencia –cuenta el autor de La explicación del comportamiento social: más tuercas y tornillos para las ciencias sociales (Gedisa), versión ampliada, revisada y autocrítica del ya clásico Tuercas y tornillos: una introducción a los conceptos básicos de las ciencias sociales –. Hay cierta renuencia a hacer de abogado del diablo y ser crítico a la corriente que uno pertenece: estructuralismo, funcionalismo, posmodernismo, poscolonialismo, psicoanálisis, marxismo, deconstruccionismo, en definitiva, seudoteorías. Ninguna de estas corrientes tiene respeto por la evidencia. No enfrentan ni se hacen una pregunta fundamental: ‘¿Cómo sabés eso?’ Simplemente, asumen. No pueden explicar cómo saben eso. Afirman que sólo hay que creerlo.”
-Después de más de 30 años de estudio del comportamiento humano, ¿diría ahora con comodidad que los seres humanos somos animales racionales?
-Definitivamente no. Al menos, no sólo eso. En mis primeros escritos de fines de los setenta y principios de los ochenta creo que estaba muy entusiasmado con este enfoque porque me parecía un buen modelo teórico para explicar cómo las personas se comportan. Sin embargo, con los años y gracias a mis investigaciones sobre fenómenos como las adicciones, me percaté de su estrechez: en lugar de explicar por qué los seres humanos hacemos lo que hacemos, explica aquello que deberíamos hacer en ciertas circunstancias. Esas situaciones ideales no se dan en todos los casos. Eso ayudó a que con el tiempo me fuera corriendo del estudio de la toma de decisiones de los individuos y pasara a preocuparme más por las tomas colectivas de decisiones.
-O sea, cambió de una aproximación de abajo-arriba al enfoque arriba-abajo.
-No exactamente. No busco entender el comportamiento individual a partir del comportamiento colectivo. Me sigue interesando el proceso a partir del cual los individuos eligen lo que terminan eligiendo: cuántos hijos tener, por ejemplo. En el caso de los grupos, me da mucha curiosidad cómo un grupo de individuos llega a una conclusión por hacer o no hacer algo. Tanto en el caso de individuos como en el de los grupos, la racionalidad es sólo una parte del proceso.
-Las emociones juegan un rol más importante del que suponemos.
-Absolutamente. Por ejemplo, cuando la Asamblea Constituyente francesa suprimió por ley las servidumbres personales y abolió el feudalismo en la noche del 4 de agosto de 1789 fue una decisión colectiva movida extremamente por las emociones: tanto por el miedo como por el entusiasmo.
-¿Eso quiere decir que el miedo no sólo paraliza?
-No. El miedo es una de las emociones más fuertes. Se puede tener miedo a lo que pasó como miedo a lo que pasará. Los delegados de la Asamblea Constituyente francesa tenían miedo de que les quemasen sus castillos y así fue como hicieron ciertas concesiones como la de abolir el feudalismo de la noche a la mañana. El miedo es una emoción muy personal. Uno puede temer una crisis financiera pero uno siente miedo si uno es afectado por tal crisis. La ira puede tener una fuerza abrumadora en la toma de decisiones como lo demostró Zinedine Zidane con su cabezazo a un adversario italiano en la final de la Copa del Mundo de 2006. A su vez, las emociones como la culpa, el desprecio y la vergüenza tienen íntimas relaciones con las normas morales y sociales.
-¿Y hay tal cosa como emociones universales?
-Las emociones son universales aunque no lo son todas. Se dice que los japoneses tienen una emoción llamada “amae” cuya traducción sería algo así como “indefensión y deseo de ser amado” que no existe en otras sociedades. Muchas veces se sugiere que el amor romántico es una invención moderna y que el sentimiento de aburrimiento es de origen reciente. “Algunas personas nunca se habrían enamorado si nunca hubiesen escuchado hablar de amor”, decía el aristócrata francés La Rochefoucauld en el siglo XVII.
-¿Y ve a la sociedad argentina como una sociedad muy emocional?
-No conozco mucho de la sociedad argentina para intentar explicarla pero me interesa. Por lo que veo y leo me fascina. Las emociones en la política argentina son más importantes que en otros países. Eso es lo que se ve desde afuera al menos. Por ejemplo, fui testigo de las procesiones por la muerte del ex presidente Néstor Kirchner. Eso no se hubiera visto en otros países. Las emociones siguen siendo un misterio. Nunca sabemos cuándo son realmente genuinas o cuándo han sido ritualizadas. Por ejemplo, lo interesante para analizar en una sociedad donde se impuso un gobierno dictatorial es por qué cierta gente se fue del país y por qué otra gente se quedó. Las emociones también pueden interferir en la adquisición óptima de información. Afectan también nuestras creencias y deseos.
-Más allá de las emociones, a la hora de distinguirnos de los animales siempre apelamos a nuestra racionalidad.
Los seres humanos queremos ser racionales, no nos gusta ser meros juguetes de fuerzas psíquicas que actúan a nuestras espaldas. No nos enorgullecen nuestras caídas en la irracionalidad. Queremos tener razones para lo que hacemos. La mayoría de las personas no quiere verse como si sólo la moviera su interés personal. Los seres humanos tenemos dos grandes motivaciones para actuar: el motivo de la ganancia material y no ser vistos únicamente movidos por el motivo de ganancia material. Nadie quiere admitir ante otros que lo único que le interesa es su ganancia personal. A veces uno no quiere admitirlo siquiera consigo mismo.
-Usted es conocido por su concepto de justicia transicional, los juicios, purgas, reparaciones que tienen lugar de la transición de un régimen político a otro, de una dictadura a la democracia, como se puede leer en su libro “Rendición de cuentas” (Katz Editores). ¿Qué lo llevó a investigar este tema?
-Me interesa cómo la percepción o idea de justicia de los individuos y las sociedades moldea o afecta su conducta. Esa idea atraviesa y está enraizada en la naturaleza humana. Soy un ferviente creyente de los valores del Iluminismo. Creo que son transculturales y transhistóricos. Muchos dicen que es mi sesgo occidental, yo digo que es universal: tratar a la gente con dignidad y respeto es un valor universal. Soy un fanático del Iluminismo. Estoy muy influenciado por los moralistas franceses como Pascal, La Fontaine, La Fayette.
-La información siempre ocupó un rol importante en la toma de decisiones. ¿Cree que este proceso cambió con la evolución de Internet?
-En la teoría de la acción racional uno actúa a partir de ciertas creencias que se consolidan a partir de cierta información que uno posee. Con la aparición de Internet el costo de la información descendió increíblemente. Eso significa que las personas deberían estar más informadas para tomar decisiones. Hay pros y contras: la información también debería ser confiable. Lo malo es que hay una tendencia a dejar que las computadoras hagan el trabajo de los seres humanos. Es algo potencialmente peligroso. En mayo de este año se produjo un crash en la Bolsa de Nueva York causado por un programa de computadora que funcionó mal. Estamos creando monstruos. El 99% del tiempo son eficientes y buenos, pero en el 1% restante pueden ser desastrosos.
-¿Sigue peleado con los sociobiólogos?
-Mucho no me quieren. Ver a la sociedad como un superorganismo es una falacia y un reduccionismo crudo que se observa también cuando se intenta explicar el comportamiento en términos biológicos. Por ejemplo, los intentos de explicar el comportamiento político en función de cierto imperativo territorial verificado en ciertos animales. O que las prácticas de fisicoculturismo pueden explicarse como resultado de la selección sexual, análoga a las plumas del pavo real o los cuernos de los ciervos. O las explicaciones de la sociobiología y la psicología evolutiva que sostienen que la depresión posparto en las mujeres evolucionó como una herramienta de negociación.
-Su trabajo tiene muchos puntos de contacto con neurocientíficos. ¿Cómo se lleva con ellos?
-Sigo muy de cerca esas investigaciones, pero con prudencia. Soy algo escéptico. Me parece que hay un entusiasmo prematuro. Las elecciones que tomamos son actos complejos producto de la interacción entre nuestras creencias y deseos. Y que yo sepa, un escáner puede detectar muchas cosas en el cerebro pero por ahora es incapaz de rastrear o identificar aquello en lo que creemos.
FICHA
La explicación del comportamiento social...
Jon Elster
GEDISA
506 págs.
$144
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Países sul-americanos
Sul-americanos apresentam reivindicações a Dilma
Marcos de Moura e Souza e Daniel Rittner | De São Paulo e Buenos Aires
03/01/2011 Valor Economico.Os governos sul-americanos estão otimistas sobre as relações que seus países terão com o Brasil no governo Dilma Rousseff. A impressão positiva que parece ter se difundido pela região, antes até da posse, se deve ao fato de ela ser herdeira de Lula, um presidente visto por sul-americanos como alguém que fez concessões às economias menores, que estimulou empresas brasileiras a investirem com empenho nos vizinhos e que trabalhou pela integração regional. A crença generalizada é que essa linha se manterá, embora haja um grau de incerteza sobre quão fácil será negociar com Dilma.
O Valorouviu nos últimos dias de embaixadores, diplomatas e analistas de alguns dos países sul-americanos as expectativas que os governos acalentam em relação à nova gestão. Ouviu também quais deverão ser algumas demandas que os presidentes encaminharão à colega e à sua equipe logo nesse início de mandato.
A Venezuela de Hugo Chávez espera manter a rotina inaugurada por ele e Lula de encontros a cada três meses mais ou menos para tratar de questões bilaterais e regionais. A diplomacia venezuelana fala em aprofundamento das relações e da cooperação entre os dois países.
"Dilma e Chávez se conhecem bem", diz o embaixador venezuelano em Brasília, Maximilien Arvelaiz. "Quando ela foi ministra de Minas e Energia e, depois, da Casa Civil, teve muitos contatos com o presidente. Esperamos poder acelerar a cooperação bilateral."
Mas o analista político venezuelano Jesus Mazzei, conhecedor das relações Venezuela-Brasil, diz que além dessas ambições gerais, Caracas deve apresentar ao novo governo ao menos um tema. "Acredito que o governo Chávez tentará discutir o destino da refinaria Abreu e Lima e qual será o papel da PDVSA no empreendimento", disse, mencionando a usina projetada para ser construída em Pernambuco em parceria com Caracas. "É possível que o governo peça a Brasília um alargamento dos prazos para a PDVSA investir na refinaria."
Se a relação entre Dilma e Chávez será tão fluida quanto a que há entre Lula e o venezuelano, Mazzei reluta. "Não sei se a relação será a mesma. Lula e Chávez têm uma grande identificação. Acho que os primeiros contatos com Dilma serão chave para dizer como será a dinâmica entre os dois governos".
Na Argentina, a chegada de Dilma ao Palácio do Planalto desperta a expectativa de "maior institucionalização" e "menos discurso" no Mercosul, segundo um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores. O governo de Cristina Kirchner (que não veio à posse para ficar com a família) reconhece a paciência de Lula com as medidas protecionistas do país, mas acha que não houve avanços significativos nas instituições do bloco, apesar do crescimento dos fluxos de comércio. A tendência é que Dilma cobre mais pragmatismo do Itamaraty, creem os vizinhos.
No Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, a visão é de que Dilma terá um papel menos ativo do que Lula nos fóruns internacionais, em um primeiro momento, com uma guinada na "diplomacia presidencial" exercida por Lula e Fernando Henrique Cardoso. O Itamaraty e, no caso da América do Sul, o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, deverão conduzir a política externa. Mas a impressão em Buenos Aires é de que isso vá mudando gradualmente, à medida que Dilma estabeleça uma relação mais próxima com os demais chefes de Estado.
Houve alívio com os sinais dados pela presidente eleita de que poderá distanciar-se do Irã. Os argentinos nunca reclamaram publicamente, mas a defesa que Lula faz do regime dos aiatolás provoca incômodo em Buenos Aires, que responsabiliza o Hezbollah e funcionários do governo iraniano pelo atentado terrorista à associação judaica Amia, em 1994, que deixou 85 mortos. "Já cansamos de explicar ao governo brasileiro que eles são culpados, mas nos dizem que não há provas", diz uma fonte da chancelaria argentina.
No Peru, o governo de Alan García espera de Dilma "vontade política" para levar adiante os trabalhos iniciados pelo governo Lula de integração energética e estudos para a construção de seis hidrelétricas em solo peruano. Parte da energia abasteceria o Brasil. "Esperamos uma decisão política para fazer avançar esse projeto o quanto antes", disse o embaixador peruano no Brasil Ricardo Ghibellini.
Bolívia e Paraguai, as duas menores economias da América do Sul, pensam ter motivos para acreditar que com o novo governo seus interesses com o Brasil continuarão a ser atendidos.
No Paraguai, a equipe do presidente Fernando Lugo deposita seu otimismo e esperanças em relação à Dilma na aprovação pelo Congresso de uma revisão do acordo de Itaipu. A mudança, costurada e assinada por Lula após forte pressão de Lugo, prevê uma aumento de US$ 120 milhões para US$ 360 milhões por ano que o Paraguai passará a receber a título de remuneração pela cessão de energia gerada pela hidrelétrica. "Como Dilma terá uma maioria no Congresso mais significativa, a expectativa do governo Lugo é que essa mudança seja aprovada sem problemas", disse um diplomata brasileiro.
Morales e seus auxiliares mais próximos têm acesso direto a Marco Aurélio Garcia, o assessor de Lula para a região, mantido por Dilma. E isso é visto como uma facilidade pelos bolivianos. Mas se acredita que com Dilma, Brasília continuará estimulando e viabilizando, via financiamentos do BNDES, a presença de empresas brasileiras na Bolívia e - talvez novos investimentos da Petrobras - o governo Morales sabe que há pressões para que a maior fiscalização para deter o narcotráfico ganhe uma abordagem mais rigorosa por parte do novo governo.
"Nós queremos impulsionar o tema do narcrotráfico, mas Evo Morales não quer ser cobrado por isso", diz uma autoridade brasileira que acompanha as relações com La Paz. É da Bolívia que vem a maior parte da pasta base, derivado da folha de coca e ingrediente-chave para a produção de cocaína e crack. Críticos e autoridades do próprio governo dizem que o tema ocupou um espaço perigosamente reduzido na agenda de discussões que Brasília estabeleceu com a Bolívia nos últimos anos.
Marcos de Moura e Souza e Daniel Rittner | De São Paulo e Buenos Aires
03/01/2011 Valor Economico.Os governos sul-americanos estão otimistas sobre as relações que seus países terão com o Brasil no governo Dilma Rousseff. A impressão positiva que parece ter se difundido pela região, antes até da posse, se deve ao fato de ela ser herdeira de Lula, um presidente visto por sul-americanos como alguém que fez concessões às economias menores, que estimulou empresas brasileiras a investirem com empenho nos vizinhos e que trabalhou pela integração regional. A crença generalizada é que essa linha se manterá, embora haja um grau de incerteza sobre quão fácil será negociar com Dilma.
O Valorouviu nos últimos dias de embaixadores, diplomatas e analistas de alguns dos países sul-americanos as expectativas que os governos acalentam em relação à nova gestão. Ouviu também quais deverão ser algumas demandas que os presidentes encaminharão à colega e à sua equipe logo nesse início de mandato.
A Venezuela de Hugo Chávez espera manter a rotina inaugurada por ele e Lula de encontros a cada três meses mais ou menos para tratar de questões bilaterais e regionais. A diplomacia venezuelana fala em aprofundamento das relações e da cooperação entre os dois países.
"Dilma e Chávez se conhecem bem", diz o embaixador venezuelano em Brasília, Maximilien Arvelaiz. "Quando ela foi ministra de Minas e Energia e, depois, da Casa Civil, teve muitos contatos com o presidente. Esperamos poder acelerar a cooperação bilateral."
Mas o analista político venezuelano Jesus Mazzei, conhecedor das relações Venezuela-Brasil, diz que além dessas ambições gerais, Caracas deve apresentar ao novo governo ao menos um tema. "Acredito que o governo Chávez tentará discutir o destino da refinaria Abreu e Lima e qual será o papel da PDVSA no empreendimento", disse, mencionando a usina projetada para ser construída em Pernambuco em parceria com Caracas. "É possível que o governo peça a Brasília um alargamento dos prazos para a PDVSA investir na refinaria."
Se a relação entre Dilma e Chávez será tão fluida quanto a que há entre Lula e o venezuelano, Mazzei reluta. "Não sei se a relação será a mesma. Lula e Chávez têm uma grande identificação. Acho que os primeiros contatos com Dilma serão chave para dizer como será a dinâmica entre os dois governos".
Na Argentina, a chegada de Dilma ao Palácio do Planalto desperta a expectativa de "maior institucionalização" e "menos discurso" no Mercosul, segundo um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores. O governo de Cristina Kirchner (que não veio à posse para ficar com a família) reconhece a paciência de Lula com as medidas protecionistas do país, mas acha que não houve avanços significativos nas instituições do bloco, apesar do crescimento dos fluxos de comércio. A tendência é que Dilma cobre mais pragmatismo do Itamaraty, creem os vizinhos.
No Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina, a visão é de que Dilma terá um papel menos ativo do que Lula nos fóruns internacionais, em um primeiro momento, com uma guinada na "diplomacia presidencial" exercida por Lula e Fernando Henrique Cardoso. O Itamaraty e, no caso da América do Sul, o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, deverão conduzir a política externa. Mas a impressão em Buenos Aires é de que isso vá mudando gradualmente, à medida que Dilma estabeleça uma relação mais próxima com os demais chefes de Estado.
Houve alívio com os sinais dados pela presidente eleita de que poderá distanciar-se do Irã. Os argentinos nunca reclamaram publicamente, mas a defesa que Lula faz do regime dos aiatolás provoca incômodo em Buenos Aires, que responsabiliza o Hezbollah e funcionários do governo iraniano pelo atentado terrorista à associação judaica Amia, em 1994, que deixou 85 mortos. "Já cansamos de explicar ao governo brasileiro que eles são culpados, mas nos dizem que não há provas", diz uma fonte da chancelaria argentina.
No Peru, o governo de Alan García espera de Dilma "vontade política" para levar adiante os trabalhos iniciados pelo governo Lula de integração energética e estudos para a construção de seis hidrelétricas em solo peruano. Parte da energia abasteceria o Brasil. "Esperamos uma decisão política para fazer avançar esse projeto o quanto antes", disse o embaixador peruano no Brasil Ricardo Ghibellini.
Bolívia e Paraguai, as duas menores economias da América do Sul, pensam ter motivos para acreditar que com o novo governo seus interesses com o Brasil continuarão a ser atendidos.
No Paraguai, a equipe do presidente Fernando Lugo deposita seu otimismo e esperanças em relação à Dilma na aprovação pelo Congresso de uma revisão do acordo de Itaipu. A mudança, costurada e assinada por Lula após forte pressão de Lugo, prevê uma aumento de US$ 120 milhões para US$ 360 milhões por ano que o Paraguai passará a receber a título de remuneração pela cessão de energia gerada pela hidrelétrica. "Como Dilma terá uma maioria no Congresso mais significativa, a expectativa do governo Lugo é que essa mudança seja aprovada sem problemas", disse um diplomata brasileiro.
Morales e seus auxiliares mais próximos têm acesso direto a Marco Aurélio Garcia, o assessor de Lula para a região, mantido por Dilma. E isso é visto como uma facilidade pelos bolivianos. Mas se acredita que com Dilma, Brasília continuará estimulando e viabilizando, via financiamentos do BNDES, a presença de empresas brasileiras na Bolívia e - talvez novos investimentos da Petrobras - o governo Morales sabe que há pressões para que a maior fiscalização para deter o narcotráfico ganhe uma abordagem mais rigorosa por parte do novo governo.
"Nós queremos impulsionar o tema do narcrotráfico, mas Evo Morales não quer ser cobrado por isso", diz uma autoridade brasileira que acompanha as relações com La Paz. É da Bolívia que vem a maior parte da pasta base, derivado da folha de coca e ingrediente-chave para a produção de cocaína e crack. Críticos e autoridades do próprio governo dizem que o tema ocupou um espaço perigosamente reduzido na agenda de discussões que Brasília estabeleceu com a Bolívia nos últimos anos.
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