segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país"/

O Globo

Assunto: O Mundo/entrevista
Título: 1b A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país
Data: 23/09/2009
Crédito: Ricardo Galhardo

Presidente deposto nega acordo prévio com o Brasil e diz que escolheu o país pela identidade democrática de Lula

Refugiado há dois dias na embaixada do Brasil em Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya disse ao GLOBO, por telefone, que escolheu a representação brasileira devido ao caráter democrático do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um amigo de Honduras, segundo ele. Zelaya negou que tenha acertado a estratégia durante sua visita ao Brasil, no dia 12 de agosto. Ele aproveitou para pedir uma ação mais enérgica dos organismos internacionais contra o governo golpista.

Ricardo Galhardo

O GLOBO: Como está a situação na na Embaixada do Brasil? MANUEL ZELAYA: A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país e há um cerco militar à embaixada.

Tem havido muita violência desde sua volta ao país, na segundafeira? ZELAYA: Na verdade, a violência começou no dia 28 de junho. Tem havido muitos assassinatos, raptos, torturas. Há informes da comissão de direitos humanos (da ONU). A violência tem uma preponderância muito forte em um regime militar provocado por um golpe de Estado.

Em que pé estão as negociações com o governo de facto para sua restituição ao poder? ZELAYA: Até o momento, não foi realizada nenhuma negociação.

Os golpistas responderam às minhas solicitações de diálogo com balas, bombas, mortes e ameaças às pessoas que estavam participando das manifestações de resistência.

As organizações internacionais como OEA têm ajudado? ZELAYA: Elas têm manifestado boas intenções, mas o que esperamos é que ajam com mais energia frente a esta situação de opressão ao povo hondurenho, já que os ataques são armados e violentos e estão criando demasiada repressão em Honduras.

Por que o senhor escolheu a Embaixada do Brasil? ZELAYA: Pela profunda identificação democrática do presidente Lula e pelo esforço que ele tem liderado para sustentar nosso país com muitos projetos. O presidente Lula é um amigo de Honduras.

l O abrigo na embaixada foi negociado com o presidente Lula durante sua última visita ao Brasil? ZELAYA: Não, não foi negociado.

Não dei conhecimento ao presidente Lula sobre essa situação. Isso foi decidido por mim assim que entrei aqui na capital de Honduras.

Nada foi acertado previamente com o Brasil.

'A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país'/Entrevista

O Globo

23/09/2009
Ricardo Galhardo

Presidente deposto nega acordo prévio com o Brasil e diz que escolheu o país pela identidade democrática de Lula

Refugiado há dois dias na embaixada do Brasil em Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya disse ao GLOBO, por telefone, que escolheu a representação brasileira devido ao caráter democrático do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um amigo de Honduras, segundo ele. Zelaya negou que tenha acertado a estratégia durante sua visita ao Brasil, no dia 12 de agosto. Ele aproveitou para pedir uma ação mais enérgica dos organismos internacionais contra o governo golpista.

Ricardo Galhardo

O GLOBO: Como está a situação na na Embaixada do Brasil? MANUEL ZELAYA: A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país e há um cerco militar à embaixada.

Tem havido muita violência desde sua volta ao país, na segundafeira? ZELAYA: Na verdade, a violência começou no dia 28 de junho. Tem havido muitos assassinatos, raptos, torturas. Há informes da comissão de direitos humanos (da ONU). A violência tem uma preponderância muito forte em um regime militar provocado por um golpe de Estado.

Em que pé estão as negociações com o governo de facto para sua restituição ao poder? ZELAYA: Até o momento, não foi realizada nenhuma negociação.

Os golpistas responderam às minhas solicitações de diálogo com balas, bombas, mortes e ameaças às pessoas que estavam participando das manifestações de resistência.

As organizações internacionais como OEA têm ajudado? ZELAYA: Elas têm manifestado boas intenções, mas o que esperamos é que ajam com mais energia frente a esta situação de opressão ao povo hondurenho, já que os ataques são armados e violentos e estão criando demasiada repressão em Honduras.

Por que o senhor escolheu a Embaixada do Brasil? ZELAYA: Pela profunda identificação democrática do presidente Lula e pelo esforço que ele tem liderado para sustentar nosso país com muitos projetos. O presidente Lula é um amigo de Honduras.

l O abrigo na embaixada foi negociado com o presidente Lula durante sua última visita ao Brasil? ZELAYA: Não, não foi negociado.

Não dei conhecimento ao presidente Lula sobre essa situação. Isso foi decidido por mim assim que entrei aqui na capital de Honduras.

Nada foi acertado previamente com o Brasil.

'A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país'/Entrevista

O Globo

23/09/2009
Ricardo Galhardo

Presidente deposto nega acordo prévio com o Brasil e diz que escolheu o país pela identidade democrática de Lula

Refugiado há dois dias na embaixada do Brasil em Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya disse ao GLOBO, por telefone, que escolheu a representação brasileira devido ao caráter democrático do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um amigo de Honduras, segundo ele. Zelaya negou que tenha acertado a estratégia durante sua visita ao Brasil, no dia 12 de agosto. Ele aproveitou para pedir uma ação mais enérgica dos organismos internacionais contra o governo golpista.

Ricardo Galhardo

O GLOBO: Como está a situação na na Embaixada do Brasil? MANUEL ZELAYA: A situação é difícil porque os golpistas sequestraram o país e há um cerco militar à embaixada.

Tem havido muita violência desde sua volta ao país, na segundafeira? ZELAYA: Na verdade, a violência começou no dia 28 de junho. Tem havido muitos assassinatos, raptos, torturas. Há informes da comissão de direitos humanos (da ONU). A violência tem uma preponderância muito forte em um regime militar provocado por um golpe de Estado.

Em que pé estão as negociações com o governo de facto para sua restituição ao poder? ZELAYA: Até o momento, não foi realizada nenhuma negociação.

Os golpistas responderam às minhas solicitações de diálogo com balas, bombas, mortes e ameaças às pessoas que estavam participando das manifestações de resistência.

As organizações internacionais como OEA têm ajudado? ZELAYA: Elas têm manifestado boas intenções, mas o que esperamos é que ajam com mais energia frente a esta situação de opressão ao povo hondurenho, já que os ataques são armados e violentos e estão criando demasiada repressão em Honduras.

Por que o senhor escolheu a Embaixada do Brasil? ZELAYA: Pela profunda identificação democrática do presidente Lula e pelo esforço que ele tem liderado para sustentar nosso país com muitos projetos. O presidente Lula é um amigo de Honduras.

l O abrigo na embaixada foi negociado com o presidente Lula durante sua última visita ao Brasil? ZELAYA: Não, não foi negociado.

Não dei conhecimento ao presidente Lula sobre essa situação. Isso foi decidido por mim assim que entrei aqui na capital de Honduras.

Nada foi acertado previamente com o Brasil.

Brasil não é polícia regional, diz hondurenho/entrevista

Folha de S. Paulo

23/09/2009

Luciana Coelho, de Genebra
entrevista

O embaixador hondurenho Delmer Urbizo defende a eleição de novembro como saída para a crise política em seu país. E revolta-se com a falta de apoio dos vizinhos -nenhum deles reconhece o governo Roberto Micheletti, que ele representa na ONU em Genebra.
No dia 14, Urbizo foi retirado do Conselho de Direitos Humanos da ONU, após embaixadores latinos, liderados pelo Brasil, pedirem a anulação da sua credencial. Mas, apesar da voz desanimada com que atendeu em sua casa ao telefonema da Folha ontem, Urbizo diz manter o moral alto.
E frisou que suas credenciais seguem válidas -a Folha apurou que a ONU ainda tramita o pedido de anulação.

FOLHA - Como fica sua situação aqui na ONU?
URBIZO - Foi um atropelo inqualificável. Estou protestando ao presidente do Conselho de Direitos Humanos. Porque sigo sendo embaixador, e, mesmo assim, me impedem de assistir às sessões.

FOLHA - Como o sr. vê o papel do Brasil nesse episódio?
URBIZO - Estranhei. Sempre respeitamos o presidente Lula. Mudaram as coisas. A política bilateral vai mal.

FOLHA - A questão do Brasil é com o governo Micheletti.
URBIZO - A questão é que o Brasil está assumindo... [O presidente dos EUA, Barack] Obama já disse isso, que está encarregando o Brasil de fazer o que os EUA faziam antes e cuidar dos interesses latino-americanos. Mas os países latino-americanos não vão procurar o Brasil para cuidar dos interesses deles.

FOLHA - O Brasil virou uma polícia regional, é isso?
URBIZO - Eram assim os EUA. Mas eles não querem mais saber da região, logo...

FOLHA - Muitos veem no Brasil o contrapeso ao venezuelano Hugo Chávez.
URBIZO - Que contrapeso? Se Chávez realmente fosse um problema para os EUA, os EUA o apagariam do mapa. Eles não continuam comprando petróleo dele? Todos têm negócio com Chávez.

FOLHA - Por que ninguém reconheceu seu governo?
URBIZO - Quantas ditaduras há no mundo e não fizeram nada? A nossa não é uma ditadura. Querem usar um país pequeno e vulnerável para fazer justiça internacional. Esse governo é transitório. Haverá eleição em 29 de novembro, eleições aprovadas no ano passado. Não há ruptura constitucional.

FOLHA - A volta de Zelaya pode atravancar o processo?
URBIZO - É provável que isso traga alguma perturbação, mas as eleições vão acontecer. Essa é a aposta do povo hondurenho, eleições transparentes. Há apoio internacional para isso, só a OEA [Organização dos Estados Americanos] não quer.

FOLHA - Quem apoiou?
URBIZO - O Clube Rotary internacional vai mandar observadores. As câmaras de comércio latino-americanas. A sociedade civil, as igrejas...
Logo o governo ganhará nas urnas o respaldo de seus eleitores. Quantos governos militares saíram com eleições legítimas? No nosso caso, só há um presidente de fato, porque o outro foi destituído pelo Congresso. Agora querem dizer que as eleições não são a saída. Como resolver o problema institucional se não assim?
E te digo, o único país com ditadura feroz que não fez uma Comissão da Verdade foi o Brasil. Qual a estatura moral brasileira? Não se pode ter dupla moral na política exterior.

“O Brasil teme se aproximar dos EUA” - Entrevista

Época

21/09/2009

Juliano Machado
Não há mais como fugir do debate de uma parceria diplomática ativa com Washington, diz o especialista

As declarações de amizade dos presidentes Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva, na prática, não melhoraram nada as relações entre Brasil e Estados Unidos. É o que pensa o especialista em relações internacionais Matias Spektor, autor do recém-lançado Kissinger e o Brasil. Para Spektor, a política de aproximação com o Brasil planejada pelo ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger nos anos 70 foi “o único momento de nossa história em que houve a intenção de uma parceria ativa com os americanos”. A experiência de Kissinger fracassou, mas abre uma reflexão sobre os prejuízos da visão de que é preciso escolher entre alinhamento automático e distanciamento para lidar com os EUA, afirma Spektor.

O QUE FAZ
Doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford, é coordenador do Centro de Estudos sobre Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas

O QUE PUBLICOU
Kissinger e o Brasil (Editora Zahar, 2009). Seu segundo livro será uma análise comparativa de países emergentes entre 1961 e 1981

ÉPOCA – O que levou Henry Kissinger a buscar uma aproximação com o Brasil?
Matias Spektor – Os anos 70 marcaram um ciclo de expansão de países periféricos, como se fossem os Brics antes dos Brics (termo cunhado em 2001 para designar as economias do Brasil, da Índia, da China e da Rússia). O papel de Kissinger foi perceber, contra a opinião dominante nos Estados Unidos, que o Brasil não só crescia a passos acelerados, como também tinha uma política externa ambiciosa. Portanto, convinha trazê-lo para perto e transformá-lo em parte do pilar do projeto americano de governança global. Era um visionário, mas ao mesmo tempo a maioria de suas apostas foi errada.

ÉPOCA – Por quê?
Spektor – Kissinger apostou na ditadura brasileira, implodida pela crise econômica. Defendeu o apartheid na África do Sul. No Irã, apoiou o xá Reza Pahlevi, expulso pela revolução islâmica. Ele detectou um mundo emergente que devia ser integrado, mas quase sempre errou na maneira de fazer essa integração.

ÉPOCA – Qual foi o significado da assinatura, em 1976, do Memorando de Entendimento entre Brasil e EUA?
Spektor – Foi a primeira vez em que os EUA se comprometeram a manter encontros diplomáticos regulares com um país em desenvolvimento. Reconheceram que o Brasil importava para o cenário mundial. Essa iniciativa de Kissinger, costurada com (Antônio Francisco Azeredo da) Silveira (chanceler brasileiro de 1974 a 1979, durante o governo de Ernesto Geisel), foi o único momento da nossa história em que houve a intenção de uma parceria ativa com os americanos. A expectativa americana era que o Brasil fosse um aliado na Guerra Fria e coordenasse as políticas dos EUA na América do Sul. Mas a cooperação nunca decolou.

ÉPOCA – Quais eram os entraves?
Spektor – Do lado americano, vários oficiais do Departamento de Estado eram contra nomear um país da América do Sul como nação-chave. Eles temiam uma reação negativa de outros países, como a Argentina, que então rivalizava conosco no continente. E recusavam o apoio a uma ditadura brutal, que torturava seus presos. Do lado do Itamaraty, fazer negócio com os americanos parecia arriscado. Engajar-se com os EUA implicava se expor a novas “áreas de conflito” com a superpotência e assumir responsabilidades no continente que o Brasil não queria. O plano de aproximação era um esforço pessoal de Kissinger, que sabia das hesitações do Brasil. Quando Kissinger deixou o poder, com a chegada à Casa Branca do democrata Jimmy Carter (1977-1981), a iniciativa chegou ao fim.

ÉPOCA – Como se relacionam hoje o Brasil e os EUA?
Spektor – Muitas das dinâmicas daquele período continuam vigentes, entre elas a percepção, sintetizada numa frase do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que “quanto menos a gente entrar no radar dos EUA, melhor”. O chanceler Silveira dizia na época das negociações com Kissinger que havia o risco de aumentar os “acidentes de rota”. Exceção a essa tentativa de parceria ativa, nossa relação com os EUA é regida por duas situações básicas: alinhamento automático, que é o Brasil seguir os EUA a reboque, como ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial e logo depois do golpe de 1964, ou o distanciamento, que é a visão dominante. Isso foi a tônica na Guerra Fria e perdura até hoje. O Brasil tem relações mais distantes com os EUA que qualquer um dos outros Brics.

Se o Brasil quiser ser potência emergente de fato,
vai ser forçado a entrar no radar dos EUA

ÉPOCA – Obama disse que o presidente Lula era “o cara”. Essa afeição entre os presidentes pode melhorar a relação?
Spektor – Não. É uma percepção fora de lugar. O fato de dois chefes de Estado terem empatia mútua não se traduz, necessariamente, em programas de cooperação. Nos principais pontos da agenda, seja comércio, proliferação nuclear, promoção da democracia ou segurança internacional, Brasil e EUA têm interesses conflitantes. Sorrisos em fotos e o fato de Obama ter usado com Lula uma expressão corriqueira nos EUA não têm relevância estratégica nenhuma. O que existe é uma expectativa americana de o Brasil se tornar um país disposto a pagar os custos de gerir a ordem internacional. E o Brasil tem sido muito relutante.

ÉPOCA – Isso frustra os EUA?
Spektor – De certa forma, sim. Na percepção americana, o Brasil está jogando numa liga menor que seu peso sugere. O Brasil é relativamente tímido, na visão de Washington. Contrariamente ao que se acredita por aqui, os EUA querem que o Brasil se fortaleça. É como me disse Kissinger, quando o entrevistei em 2006 para escrever o livro: “Eu queria muito que o Brasil fosse mais poderoso. Queria acelerar sua ascensão”.

ÉPOCA – Qual foi o envolvimento de Kissinger na Operação Condor, uma aliança entre ditaduras do Cone Sul nos anos 1970 para caçar opositores?
Spektor – Não há dúvidas de que Kissinger apoiou ostensivamente a repressão no Cone Sul. É por isso que ele não viaja para países como o Brasil, pois pode ser chamado por um juiz local a depor em processos de violação de direitos humanos. No entanto, em relação à Operação Condor, não há até agora evidências documentais de que nem o Brasil, muito menos Kissinger, tivesse uma posição proeminente. Há uma diferença entre Kissinger conhecer essas estratégias e ter participado delas ativamente.

ÉPOCA – Qual é o legado de Kissinger para as relações entre Brasil e EUA?
Spektor – Kissinger foi um tom destoante da norma diplomática entre os dois países. Se foi bom ou ruim, é difícil dizer, porque durou pouco. Nossa geração ainda vive um dilema enorme: como fazer para lidar com a maior potência do mundo? A decisão não pode se restringir a uma falsa escolha entre alinhamento automático e distanciamento. Se o Brasil quiser ser potência emergente de fato, vai ser forçado a entrar no radar dos EUA. Não adianta fazer a política do pato, que é enfiar a cabeça embaixo d’água na hora que passa o gavião. Kissinger nos faz refletir sobre o que ganharíamos com uma parceria ativa com os EUA. Não estou advogando pela aproximação, mas isso deveria ser debatido na sociedade. Por que ninguém fala numa possibilidade de acordo comercial bilateral? O Brasil tem medo de se aproximar dos EUA. Isso não é necessariamente errôneo, mas não podemos ficar presos a uma dicotomia do passado.

'Chávez tem uma queixa legítima contra EUA' - Entrevista

O Globo

21/09/2009

Ricardo Ávila

Ex-presidente admite que o governo americano tinha conhecimento do golpe de Estado na Venezuela em 2002

ATLANTA, Geórgia. Perto de completar 85 anos, James Earl Carter, ou Jimmy Carter, continua gerando manchetes na imprensa. Presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981, Prêmio Nobel da Paz em 2002, este ex-governador de seu estado natal (Geórgia) e antigo plantador de amendoim mantém um ritmo de atividades de causar inveja aos mais jovens. Por meio do Centro Carter, com sede em Atlanta, ele promove iniciativas dirigidas à defesa dos direitos humanos e ao entendimento entre diferentes povos e nações. Nesta entrevista ao jornal colombiano "El Tiempo", ele analisa a situação do Brasil, da Venezuela e dos EUA com relação à América Latina, entre outros temas.

Ricardo Ávila

Por que o senhor continua acompanhando de perto os assuntos da América Latina?

JIMMY CARTER: A motivação começou na época em que fui governador e tive que viajar pela América Latina para promover o comércio com o meu estado, a Geórgia. Quando assumi a Presidência, a situação era preocupante, pois a maioria dos países vizinhos, particularmente na América do Sul, era comandada por ditaduras. Desde então, assumi um compromisso com a causa dos direitos humanos no mundo todo e, por isso, comecei a ter conflitos sobre o tema com meus predecessores na Casa Branca e com a comunidade financeira.

Concorda com a afirmação de que as tensões na região aumentaram recentemente?

CARTER: Acho que sim. Na época em que eu era presidente, houve um sério confronto entre Chile e Argentina devido às fronteiras, enquanto a Bolívia defendia o direito a uma saída para o mar. As tensões são antigas. Mas acho que as tensões internas estão mais evidentes agora. É preciso registrar que pessoas antes excluídas conseguiram um nível crescente de influência e autoridade, graças às eleições. Isso ocorreu no Brasil, por exemplo, onde grupos que antes tinham papel menor na estrutura política agora estão na vanguarda.

O que pensa do presidente venezuelano, Hugo Chávez?

CARTER: Eu o conheço bem. O Centro Carter esteve envolvido em quatro ou cinco eleições na Venezuela, algumas delas complicadas. Mas afirmo que cada resultado eleitoral foi basicamente compatível com a vontade do povo venezuelano. Chávez saiu na frente numa eleição honesta, com quase 62% dos votos. Dito isso, acho que sua popularidade no país caiu e que sua influência sobre outros países também decresceu. Chávez conseguiu uma transformação que era necessária na Venezuela, ao deixar que os excluídos tivessem uma participação mais igualitária na riqueza nacional. Mas, agora que os recursos do petróleo diminuíram, estou preocupado com sua tendência de concentrar todo o poder político, em vez de contar com um Judiciário independente e com órgãos autônomos em sua administração, que controla o Poder Legislativo. Pessoalmente, me decepcionei ao vê-lo se afastar do que considero uma oportunidade justa e honesta, que foi o resultado de eleições legítimas, para uma dominação crescente de sua parte, que o levou a ter um governo mais autoritário.

O que acha das críticas de Chávez aos EUA?


CARTER: Não há dúvidas de que, em 2002, os EUA tinham conhecimento ou estiveram envolvidos diretamente no golpe que o derrubou. De forma que ele tem uma queixa legítima contra o governo americano. Agora temos outro presidente e Chávez também mudou. Creio que tanto a Venezuela e Chávez, como as relações internacionais, ficariam melhores se seus ataques contra os EUA, agora fortuitos e injustificados, parassem.

Qual sua opinião sobre o uso de bases aéreas colombianas por militares americanos?

CARTER: Começou mal, com críticas de todos os lados. Antes de anunciá-la publicamente, o presidente Álvaro Uribe deveria ter explicado que não haveria aumento nas forças militares dos EUA e que o propósito seria restrito à luta contra as drogas. É natural, devido à ampla história de intervenções americanas na região, supor que este seria um assunto polêmico.

Mas a ideia é boa ou má?

CARTER: Não sei. Nunca me explicaram bem nem o propósito nem os detalhes do acordo.

Como vê o relevante papel do Brasil na América Latina?

CARTER: É gratificante que o Brasil exerça uma influência maior, que é legítima. É uma grande nação, dedicada à liberdade e à democracia, com um compromisso com os direitos humanos, e que está capitalizando suas possibilidades econômicas. Fico feliz em ver que na próxima reunião do G-20 o Brasil estará ali, junto com outras nações importantes do mundo.

Como vê a situação dos direitos humanos na região?

CARTER: Sempre me preocupei com o assunto, em qualquer parte do mundo. Mesmo nos EUA, nos últimos oito anos, durante o governo Bush, com a tortura de prisioneiros e a violação dos direitos civis, além do mal que fez a acordos internacionais sobre o tema. Quando vejo algum tipo de violação em outras nações, sempre me inquieto.

Há críticas crescentes à política dos EUA na América Latina. O senhor conversa sobre o assunto com Barack Obama?

CARTER: Não foi dada a devida atenção à região no governo passado nem é dada no atual, sobretudo quanto às oportunidades que os EUA têm de desempenhar um papel igualitário e de respeito mútuo. Um dos caminhos seria aumentar nossa participação na OEA.

domingo, 20 de setembro de 2009

O centenário de nascimento de Bobbio

Prof Farlei Martins Ucam e doutorando de direito da Puc-rio nos envia a seguinte matéria




O Estado de S. Paulo, 20/09/2009
Celebrando Bobbio no seu centenário

Celso Lafer



O próximo mês de outubro assinala o centenário de nascimento de Norberto
Bobbio, o grande pensador italiano falecido em 2004, cuja obra há muito
tempo vem sendo discutida e apreciada em seu país e em tantos quadrantes
culturais do mundo. No Brasil, que visitou em 1983 e onde deu conferências e
participou de debates na Universidade de Brasília e na Faculdade de Direito
da USP, ele se tornou uma referência, não só para um diversificado espectro
do campo político brasileiro que vai da esquerda ao centro liberal, como
também para os estudiosos das áreas do conhecimento a que se dedicou ao
longo de uma vida voltada para o ensino e a pesquisa.

O rigor e a profundidade dos conhecimentos, o espírito público, a inteireza
do caráter, a altiva independência, o empenho no diálogo, o combate ao
arbítrio e aos fanatismos, a dedicação à preservação da liberdade e a
permanente preocupação com a igualdade são características do percurso de
Norberto Bobbio e do seu "socialismo liberal". Foram, no correr da sua vida,
explicitadas e articuladas como professor e intelectual que militou no
espaço público da palavra e da ação e são componentes substantivos do seu
magistério.

O que singulariza o magistério de Bobbio é a clareza. San Tiago Dantas
observou que "a tarefa da inteligência humana é tirar o valor das coisas da
obscuridade para a luz". A essa tarefa da inteligência humana Bobbio se
dedicou com resultados exemplares. Por isso, foi considerado o grande
clarificador dos problemas e desafios da teoria jurídica e da teoria
política, da paz e da guerra, da tutela dos direitos humanos, da relação
entre os intelectuais e o poder, das especificidades da cultura italiana e
europeia e de seus autores clássicos, para mencionar grandes e
significativos blocos da sua notável obra - da qual grande parte dos títulos
mais conhecidos está disponível em edições brasileiras. Bobbio esclarece os
seus leitores graças às virtudes do seu estilo de pensamento - e estilo,
como a cor para o pintor, é uma qualidade da visão, como dizia Proust.

O estilo de Bobbio é de índole analítica. Analisar significa dividir,
distinguir, decompor, que é o que ele faz no trato dos conceitos. Nas suas
análises opera com uma multiplicidade de dicotomias voltadas para apontar
diferenças e semelhanças e, dessa maneira, lidar com uma realidade complexa
e desordenada. Levando em conta a "lição dos clássicos" e os seus temas
recorrentes, reaglutina os conceitos, numa arte combinatória de grande
originalidade, na qual a linguagem ilumina o entendimento dos contextos e
das situações. É isso que faz dele um raro caso de pensador analítico com
agudo senso da História. Daí a qualidade e pertinência dos seus juízos.

O ponto de partida de Bobbio, como diz em Política e Cultura, é o da
"inquietação da pesquisa, o aguilhão da dúvida, a vontade do diálogo, o
espírito crítico, a medida no julgar, o escrúpulo filológico, o senso de
complexidade das coisas". O pano de fundo da sua obra, como a de Isaiah
Berlin, Raymond Aron, Hannah Arendt - o centenário destes também celebrei
nesta página -, é uma resposta às rupturas e descontinuidades do século 20,
cujas vicissitudes enfrentaram com a sensibilidade comum que,
independentemente das posições, caracteriza uma geração, como salienta
Ortega y Gasset.

Bobbio viveu os seus anos de formação no período fascista, regime político
que é parte integrante da dinâmica da "era dos extremos", que historicamente
moldou o século 20. O fascismo, como ele observou, "trazia a violência no
corpo. A violência era a sua ideologia". Caracterizou-se pela exaltação da
guerra e a estatolatria e o seu ímpeto motivador foi o combate à democracia.

A obra de Bobbio, em função da sua vivência e da sua oposição ao fascismo, a
isso se contrapôs. Por isso, como observa Pier Paolo Portinaro, tem como um
dos seus elementos constitutivos a contestação à fúria dos extremos, voltada
para a destruição da razão, que caracterizou o contexto político italiano e
europeu, com irradiação mundial antes, mas também depois da 2ª Guerra
Mundial. É, assim, um percurso intelectual muito voltado para a pesquisa e a
análise de alternativas medularmente distintas daquelas que o fascismo, como
regime de vocação totalitária, emblematizou, em especial a destruição da
democracia e a glorificação do belicismo e do papel salvador do "Duce".

É nessa moldura que se configuraram temas recorrentes e interligados da
reflexão de Bobbio. Entre eles, o da domesticação do poder pelo Estado de
Direito, a defesa da perspectiva dos governados pela abrangente tutela das
várias gerações de direitos humanos, a razão de ser da democracia e das suas
regras, que "conta cabeças e não corta cabeças". É nesse contexto, voltado
para eliminar ou limitar, da melhor maneira possível, a violência como meio
para resolver conflitos, que se insere a sua análise das relações
internacionais e o seu empenho em prol da paz, direcionado para conter o
caso mais clamoroso da violência coletiva, que é a guerra entre os Estados
que, na era nuclear, tem o potencial de destruição da própria humanidade.

A violência, que se caracteriza pela desproporção entre meios e objetivos e
pela falta de medida, destrói, exaure e não cria. Permeia este século 21,
que continua carregando no seu bojo a herança da "era dos extremos" que
moldou o século passado. A atualidade e a autoridade do legado de Bobbio
residem na lúcida busca que, com o realismo de um olhar hobbesiano e a
dimensão ética de um coração kantiano, empreende de caminhos jurídicos e
políticos alternativos à violência no labirinto da convivência coletiva. Tem
como lastro a conjetura de que o único possível e plausível salto
qualitativo na História é o da passagem do reino da violência para o da
não-violência.

Celso Lafer, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da
Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras, foi
ministro das Relações Exteriores no governo FHC