sexta-feira, 1 de maio de 2009

Índios rivais já discutem ''herança'' na Raposa

Folha de São Paulo

01/05/2009

Disputa por construções abandonadas por arrozeiros na reserva acirra as divergências entre grupos de indígenas em RR
Representantes do CIR e da Sodiur dizem que diferenças entre as entidades devem aumentar após a retirada completa dos não índios

JOÃO CARLOS MAGALHÃES, da AGÊNCIA FOLHA, NA RAPOSA/SERRA DO SOL (RR)

No último dia do prazo legal para a saída dos não índios da reserva Raposa/Serra do Sol, indígenas de entidades rivais já discutiam ontem a "herança" de quem deixou a área.
Construções abandonadas na vila Surumu (porta de entrada da terra indígena) estão sendo ocupadas por índios da Sodiur (Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima), que apoiou a permanência dos arrozeiros.
O problema é que, para lideranças do CIR (Conselho Indígena de Roraima), organização a favor da saída dos não índios, as chaves dos imóveis deveriam ser dadas à Funai (Fundação Nacional do Índio), que depois decidiria o que fazer com eles.
"Estamos fazendo isso porque eles [CIR] querem abarcar tudo", disse o índio macuxi Edinilson Albuquerque, da Sodiur.
Cristóvão Galvão, um dos líderes do CIR na região, disse que fará apenas o que mandar a Justiça. Para ele, "esse discurso de derramamento de sangue" é exclusivo dos que foram derrotados pela decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de manter a demarcação contínua da reserva, que ocupa 7% do Estado (1,7 milhão de hectares).
Ambos disseram que as diferenças entre as entidades devem aumentar após a retirada completa dos não índios.

Terra arrasada
Outra disputa deve envolver a ocupação das ao menos oito fazendas de arroz, propícias para plantações e criação de animais. Nas propriedades, não restou muito para ser usado. Os arrozeiros as tornaram "terra arrasada" antes de sair.
Paulo César Quartiero, líder dos produtores, tirou quase tudo de sua fazenda. Depois, usou máquinas para derrubar até as construções de alvenaria.
Ontem, o tráfego de caminhões que saíam das propriedades era intenso. Tentavam levar tudo o que podiam até a 0h de hoje, quando vencia o prazo para a saída voluntária.
Os poucos expulsos que ainda restavam na vila ontem esperavam os caminhões cedidos pelo governo estadual para levar os bens. Segundo afirmaram, eles somavam menos de dez famílias. As que não conseguirem sair no prazo não devem resistir à retirada. Mas há outras no interior da reserva, que podem insistir em ficar.
Já os índios não demonstravam estar na reta final de um conflito que, dizem eles, durou 38 anos e lhes custou 22 vidas. Na escola e nas casas, não havia sinais de festa.
A tranquilidade na vila só foi quebrada pela chegada do presidente do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, Jirair Meguerian, e de um ônibus com 50 agentes da FNS (Força Nacional de Segurança).
A FNS, junto à Polícia Federal e à Funai, começaria a operação de retirada de quem insistir em ficar na área a partir da madrugada de hoje. A ação pode durar até um mês e será realizada por mais de 500 funcionários federais.
Meguerian pediu aos índios que não tentem expulsar aqueles que não saírem após o final do prazo. A ordem é para que apenas a PF faça isso.

Inimigo da paz

O Globo

01/05/2009

A maior vítima de Ahmadinejad é o povo iraniano

OSIAS WURMAN

Ouçam a voz da Santa Sé, na pessoa de seu porta-voz, padre Federico Lombardi, que na Rádio Vaticano assim qualificou o discurso do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, na ONU: “Extremista e inaceitável.” Acrescentem-se as declarações do iraniano, Mahdi Karroubi, ex-presidente do Parlamento, um clérigo moderado que irá disputar a eleição presidencial iraniana de 12 de junho, em chapa de oposição à reeleição de Ahmadinejad.

Disse Karroubi em relação ao presidente iraniano: “O Holocausto é um fato. É óbvio que ele ocorreu, não importando o número de pessoas que morreram, se foram 6 milhões ou 6 mil. Negar o Holocausto não traz qualquer benefício ao Irã.

Foi uma de suas muitas declarações impensadas. Ele chama as resoluções da ONU de ‘papéis sem valor’, causando problemas para o Irã, mas são todos os iranianos que têm de pagar o preço. As declarações do presidente prejudicaram os interesses do Irã.

Durante reuniões privadas, o aiatolá Khamenei (líder religioso supremo do Irã) rejeitou especulações de que ele está apoiando a reeleição de Ahmadinejad.” Somem-se a estas declarações as denúncias de perseguições religiosas promovidas pelo atual governo iraniano, com destaque para as vítimas cristãs, bahais e muçulmanos sunitas. Também a homofobia assumida de forma escandalosa, a prática da lapidação feminina, a execução por apedrejamento em público de supostas adúlteras compõem um quadro sombrio da triste realidade iraniana.

A maior vítima de Ahmadinejad é o próprio povo iraniano, afogado numa inflação anual de cerca de 30%, dependente da quase monocultura petrolífera e cerceado das liberdades fundamentais de opinião e expressão, comprovada pela prisão da jornalista americana Roxana Saberi, condenada, a portas fechadas, a oito anos por suposta espionagem.

Na mesma semana em que ocorreu a reunião de Durban II, os herdeiros de Hitler espalhados pelos quatro continentes comemoraram os 120 anos de seu nascimento. As declarações de Ahmadinejad na ONU, com cobertura midiática global, foi a maneira mais dramática e cruel de demonstrar que Hitler não morreu, pois só morre quem é esquecido, e seu ódio aos judeus foi revivido na injuriosa e repugnante fala antissemita, camuflada de antissionismo.

Esta semana em Brasília, durante homenagem aos 61 anos de independência do Estado judeu, emocionei-me ao ouvir o hino nacional brasileiro, interpretado em espaço territorial de soberania israelense, na presença de brasileiros amigos do Estado de Israel. Emocionei-me por lembrar que meus antepassados poloneses tiveram que fugir de sua terra natal, na década de 30, pois o racismo e o nazismo infiltravamse no coração da Europa, contaminando uma sociedade dita como “intelectual e altamente civilizada”.

Escolheram o Brasil para sua nova pátria, uma opção acertada de país acolhedor e povo hospitaleiro.

Passados quase 80 anos, vivo o pesadelo de ver o solo brasileiro, onde estão sepultos meus quatro avós e minha mãe, imigrantes poloneses, naturalizados brasileiros, na iminência de ser pisado pelo maior negacionista, em nossa geração, da História e do Holocausto. Um inimigo mortal do Estado de Israel, com quem o governo e o povo brasileiro mantêm relações de amizade e cooperação há 61 anos. Um inimigo da paz, que insiste em desenvolver a energia nuclear, à revelia da comunidade internacional, esquivando-se das inúmeras sanções aplicadas pela ONU aos seus planos.

O povo brasileiro é pacífico e refratário ao racismo, comprovado pela tradicional convivência árabe-judaica em nosso país. Somos um exemplo de democracia a ser seguido pelos verdadeiros amantes da paz e da justiça.

O presidente Lula, fiel amigo da comunidade judaico-brasileira, declarou publicamente, no evento do Dia em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU, que, mesmo que não houvesse judeus no Brasil, ainda assim ele seria um convicto combatente do antissemitismo e de todas as formas de racismo. Também lembrou a memória dos irmãos da Força Expedicionária Brasileira que tombaram na Itália, na luta contra o nazismo.

No próximo dia 6 de maio, Ahmadinejad chega ao Brasil. Uma indesejável visita!

OSIAS WURMAN é jornalista.

“Desconforto” entre Israel e o Brasil

Correio Braziliense

01/05/2009

Viviane Vaz e Silvio Queiroz

O Itamaraty trava com Israel uma discreta e polida queda de braço em torno da visita do presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, que virá a Brasília na próxima quarta-feira com uma comitiva de 130 integrantes — entre ministros, funcionários e empresários. Depois de a chancelaria ter chamado o embaixador brasileiro, Pedro Motta, para manifestar seu desconforto pela decisão brasileira de receber Ahmadinejad, ontem o presidente do Parlamento enviou cartas aos presidentes da Câmara e do Senado para reforçar as objeções à aproximação do Brasil com um governante que nega o Holocausto e fala em “riscar Israel do mapa”.

“Nós ouvimos e tomamos nota das preocupações”, disse ao Correio um diplomata brasileiro, “mas sabemos que essa é a praxe deles, fazem sempre o mesmo”. Há duas semanas, Israel chamou para consultas seu embaixador na Suíça em protesto pela reunião do presidente Hans-Rudolf Merz com Ahmadinejad, na véspera do dia em que são lembradas as vítimas do Holocausto. O Itamaraty não considera provável a repetição da medida com o Brasil, que divulgou nota censurando as posições do presidente iraniano e antecipando que o presidente Lula abordará o tema com o colega. “Não estamos recebendo Ahmadinejad para referendar as posições dele sobre essas questões.”

O embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, falou ontem à imprensa sobre a visita do presidente, a primeira de um chefe de Estado iraniano em 100 anos de relações diplomáticas. “É a maior delegação do Irã em visita a um país estrangeiro”, destacou o embaixador. Ahmadinejad e Lula tratarão principalmente das relações bilaterais, sobretudo de comércio e parcerias na área energética. Também deve ficar acertada uma viagem de Lula ao Irã até o fim do ano.

Em entrevista exclusiva ao Correio (leia abaixo), Shaterzadeh adiantou que o governo de Teerã abriu uma linha de crédito de US$ 200 milhões para investimentos no Brasil. Empresários de mais de 65 companhias participarão de um seminário na Fiesp, em São Paulo, onde a presença de Ahmadinejad está motivando a organização de protestos da comunidade judaica.
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Entrevista - MOHSEN SHATERZADEH
Teerã quer lugar no “triângulo do Sul”

O embaixador do Irã no Brasil, Mohsen Shaterzadeh, falou com exclusividade ao Correio sobre os principais temas que serão tratados na visita do presidente Mahmud Ahmadinejad e no encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Investimentos
O Brasil é o melhor lugar para a reexportação dos produtos iranianos para a América Latina, e o Irã é o melhor lugar para a reexportação dos produtos brasileiros para a Ásia Central e o Oriente Médio. Podemos usar a linha de crédito (aberta pelo governo iraniano, com fundos de US$ 200 milhões) para as reexportações entre os dois países. Esse valor é um primeiro passo, mas a longo prazo poderá chegar a bilhões de dólares. Os bancos brasileiros também são bem-vindos no Irã. E também convidamos as empresas de seguro iranianas para vir ao Brasil.

Petrobras no Irã
Certamente, a Petrobras é uma parte importante e já está presente em Tusan, no sul do Irã. Qualquer novo investimento será muito bem-vindo. E o Irã também pode cooperar, não só na área de petróleo, como também em petroquímica e refinarias. O Brasil tem grande experiência em hidrelétricas, e o Irã, na construção de termelétricas. Há projetos de usinas em terceiros países nos quais o Brasil poderia colaborar.

Brasil na Opep
O presidente Lula, baseado nas novas descobertas de petróleo, desejava que o Brasil fosse membro da Opep. Esse interesse da parte brasileira é muito bem recebido pelo Irã, para fortalecer a cooperação Sul-Sul. Na Opep existem países exportadores de petróleo, e até o Brasil chegar a esse nível levará muito tempo, mas a presença brasileira ajuda no fortalecimento da organização. E até no triângulo Ibas (Índia, Brasil e África do Sul), a necessidade que esses povos têm de energia favorece a cooperação. Talvez pudéssemos fazer um quarteto do qual participe o Irã.

Cooperação nuclear
Essa questão é muito importante, mas não tem prioridade neste momento. Cada país tem um modelo, e o Irã está tentando desenvolver um modelo de desenvolvimento próprio, diferente do ocidental, do oriental e de outros. Tenho certeza de que no Brasil também há um modelo nacional, que responde ao desenvolvimento do país. O desenvolvimento da ciência nuclear no Irã é baseado no slogan da Revolução Islâmica: independência. Isso significa autosuficiência em todas as áreas: economia, ciências, tecnologia.

América Latina
No governo do presidente Ahmadinejad, há duas prioridades de política externa: dar mais atenção à África e desenvolver as relações com a América Latina. Essa política é baseada na ideia de melhorar a cooperação entre os países do sul, onde existem grandes riquezas e força de trabalho. É uma região que procura a justiça social, luta contra a pobreza e a exclusão social. Sentimos que são nossos amigos.

Diálogo com Obama
Houve operações e injustiças por parte dos americanos, antes e depois da Revolução Islâmica, basta olhar para a história contemporânea para ver a interferência dos americanos nos assuntos internos do Irã (cita o asilo concedido ao xá e o apoio a Saddam Hussein na guerra contra o Irã, entre outros episódios). Existem bilhões de dólares, dinheiro iraniano, confiscados pelos EUA, que não são devolvidos. Os EUA não diminuíram o embargo contra o povo iraniano. Apesar de tudo isso, o povo iraniano é muito generoso. Mas ainda não verificamos nenhuma mudança prática, o que chega são palavras. Para mostrar boa vontade, penso que o primeiro passo seria suspender o embargo ao Irã. O uso da ciência e tecnologia é um direito de cada povo. Esperamos dos EUA mudanças mais práticas.

Ahmadinejad e o Holocausto
No Irã, até a oposição apoiou o presidente (durante conferência das Nações Unidas, na semana passada, Ahmadinejad questionou o genocídio dos judeus na Alemanha nazista). Mas queria fazer uma pergunta: será que os direitos humanos são diferentes para os europeus e para os africanos, ou será que são valores universais? Penso que o discurso do presidente Ahmadinejad, a palavra dele foi a das pessoas injustiçadas, sofridas, pobres. Penso que a violação dos direitos humanos é maior nos países defensores desses “direitos humanos” do que em outras partes do mundo. Basta olhar para os imigrantes nesses países. Será que não temos direito de falar? Na Conferência em Genebra, havia mais de 4.500 pessoas (quando Ahamdinejad falou). Quantas ficaram e quantas deixaram a sala?

Obama não muda o discurso do terrorismo

Folha de São Paulo, sexta-feira, 01 de maio de 2009



Apesar de retórica, Obama não mexe em lista do terror
Relatório do Departamento de Estado, 1º do novo governo, mantém Cuba, Irã, Síria e Sudão

Teerã acusa EUA de praticar tortura, Havana diz que Casa Branca é "delinquente internacional" e Caracas compara democrata a Bush

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Se o discurso mudou, a política continua a mesma. Pelo menos segundo relatório anual sobre terrorismo que o Departamento de Estado norte-americano prepara a pedido do Congresso dos EUA.
No divulgado ontem, com dados recolhidos ainda sob George W. Bush, mas já sob a chancela do presidente Barack Obama e da secretária Hillary Clinton, Cuba, Irã, Síria e Sudão aparecem como "Estados patrocinadores de terrorismo".
A quadra já constava dos relatórios de Bush, que removeu a Coreia do Norte da lista em 2008. Pois esse país continua fora, mas os outros quatro não ganharam a deferência. Na prática, isso significa que não podem receber ajuda econômica nem fazer tratados comerciais e acordos financeiros com os EUA, entre outros vetos.
A decisão se choca com a retórica conciliatória de Obama. Por ocasião do Ano Novo persa, o democrata gravou mensagem positiva ao povo iraniano e ao regime dos aiatolás. Nas últimas semanas, derrubou as restrições de viagem e remessas de cubano-americanos para Cuba.
O tom é outro no texto. "O Irã continua o Estado patrocinador de terrorismo de maior importância" no mundo.
O relatório acusa o país de armar clandestinamente, via Guarda Islâmica Revolucionária (também conhecida como Forças Especiais Quds), o Hizbollah no Líbano, o Hamas na Palestina, a insurgência iraquiana e mesmo o Taleban na fronteira Afeganistão-Paquistão, que sob Obama se tornou a maior frente militar dos EUA.
Diz que o Quds está presente até mesmo na América Latina, onde o governo iraniano está tentando "expandir seus laços militares", segundo o documento. Na região, outro governo com o qual a nova Casa Branca vem ensaiando uma distensão aparece sob ótica negativa. De acordo com o texto, a Venezuela foi certificada como país "que não coopera totalmente" com os EUA na luta contra o terrorismo.
Entre os fatores de preocupação da Chancelaria norte-americana em relação a Hugo Chávez está o estreitamento de relações com o Irã. É ressaltada a suposta falta de rigor na vigilância de passageiros dos voos entre a capital venezuelana e Teerã, o que faria do aeroporto Simón Bolívar "uma estação de entrada potencialmente atrativa para terroristas".
A interação maior do Irã com os governos esquerdistas latino-americanos é preocupação presente no relatório, aparecendo também nos verbetes da Bolívia -é citado o anúncio de Evo Morales de que abriria embaixada em Teerã- e da Nicarágua -no caso, a decisão do presidente Daniel Ortega de não exigir visto dos iranianos.
Outro ponto de atrito são as relações do governo venezuelano com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia), grupo armado que Washington considera "terrorista", e Caracas, apenas "beligerante". A guerrilha também aparece no texto sobre a Nicarágua, no qual o governo de Ortega é criticado por manter "estreita relação" com as Farc.
Irã, Cuba e Venezuela rejeitaram as conclusões do relatório e acusaram os EUA de "não ter autoridade moral" para julgar condutas alheias.
Teerã disse que a Casa Branca "aplica tortura" na prisão de Guantánamo e apoia a ocupação israelense de terras palestinas, Havana acusou Washington de ter histórico de "delinquente internacional" por praticar "terrorismo de Estado" e Caracas afirmou que o documento "tem muito de Bush".

O dólar furado

O Globo

30/04/2009

Demétrio Magnoli e Gilson Schwartz

A primeira crise econômica global do século XXI descortina um paradoxo. Os EUA, símbolo da economia liberal, entregamse à produção de multibilionários pacotes de estímulos fiscais que ampliam seu déficit interno, ameaçam provocar forte desvalorização do dólar e, contrariando os princípios do sistema comercial multilateral, impõem uma cláusula protecionista: Buy America.

No polo oposto, a China, uma ditadura de partido único, proclama sua adesão aos princípios do livre mercado e da estabilidade cambial, oferecendo até pequenas lições de ortodoxia econômica a Washington.

Lição um: “A China é contra qualquer forma de protecionismo”, frisou Yao Jian, porta-voz do Ministério do Comércio, ao pedir que a OMC conclame “todos os países membros a se comprometerem com a sua estratégia de livre comércio”. Lição dois: “Nós não praticaremos o Buy China”, garantiu Jiang Zengwei, vice-ministro do Comércio. Lição três: “A crise solicita uma reforma criativa do sistema monetário internacional existente, rumo a uma moeda de reserva internacional de valor estável, emissão baseada em regras e oferta administrável, a fim de alcançar o objetivo de resguardar a estabilidade econômica e financeira global”, pontificou Zhou Xiaochuan, presidente do banco central.

EUA e China cumprem missões opostas, mas complementares, na gangorra da globalização. Os EUA configuram o principal mercado consumidor dos bens fabricados pelo sistema produtivo implantado na Ásia. A China funciona como nexo entre Ásia e Ocidente.

Uma expressão do papel que ela desempenha encontra-se na sua balança comercial, que exibe fortes saldos positivos no intercâmbio com os EUA e significativos saldos negativos nos intercâmbios com o restante da Ásia. O ciclo de crescimento abortado pela crise atual apoiou-se no desequilíbrio estrutural entre o excesso de consumo nos EUA e o excesso de poupança na China, que se aprofundou até vergar a economia global.

O motor das altas finanças simulou um equilíbrio virtual, apoiado na rotação acelerada dos capitais especulativos.

O déficit em conta corrente dos EUA, que atingiu US$ 664 bilhões em 2008, foi financiado pelos exportadores asiáticos, especialmente pela China, cujo superávit em conta corrente roçou os US$ 400 bilhões. O fluxo de capitais emanados da Ásia e reciclados nos mercados financeiros ocidentais propiciou, no ambiente de juros baixos e crédito abundante, mais uma louca balada especulativa, cujos sinos dobraram no colapso do Lehman Brothers. Game over.

Nada mais será como antes? A depressão econômica sangra os EUA, mas a democracia opera como colchão de amortecimento de impacto e reage pela invenção da presidência de Barack Obama. Na China, cujas estruturas produtivas sustentam a transferência anual de uma massa avassaladora de camponeses para as cidades, a ruptura da ordem econômica global ameaça a própria estabilidade política interna.

Com seu sistema político inflexível, a China enfrenta um milhão de motins fragmentários e, por isso, sua elite dirigente não tem alternativa realista senão conservar um ritmo alucinante de expansão econômica.

O apego de Pequim ao dogma dos mercados livres traduz o interesse nacional chinês. Mas, se o sucesso da China é uma variável dependente do desempenho dos EUA, em nome de qual lógica o banco central chinês propõe a substituição do dólar por uma moeda mundial emitida pelo FMI? Há três hipóteses: chantagem, catástrofe e mutação.

Chantagem: Pequim convoca o espectro do cancelamento do poder monetário dos EUA para dar combate às insistentes sugestões americanas de uma saída para a crise baseada na valorização da moeda chinesa e na desvalorização do dólar. Atrás da chantagem, esconde-se o temor da destruição dos ativos financeiros chineses denominados em dólar e o desejo de restauração da ordem especulativa prévia.

Catástrofe: os dirigentes chineses apostam na crise mundial como atalho para a ascensão do Império do Centro ao posto de número um e ao comando de uma nova era de expansão global. A estratégia, improvável, coaduna-se com uma visão de mundo esculpida pela sensação de poder oriunda do peso bruto da demografia e por um passado recente de marchas longas e tragédias indescritíveis.

Mutação: a liderança chinesa encara a crise como um ponto de inflexão inevitável e empenha-se numa parceria com Washington para a reforma do sistema financeiro global. Nessa hipótese, Pequim admite a necessidade de um realinhamento cambial ordenado e procura circundar o precipício de desvalorizações cambiais unilaterais, com seu cortejo incontrolável de protecionismo e guerras comerciais. O edifício da projetada parceria, antecipando um cenário de duopólio de poder geopolítico, estaria apoiado sobre os pilares multilaterais do FMI e da OMC, dispensando o alicerce condenado de um dólar em irreparável declínio.

Há 65 anos, Franklin Roosevelt desenvolveu a visão dos dois componentes, “inseparáveis como as lâminas de uma tesoura”, do mundo do pós-guerra.

De um lado, figurava uma ordem política pacífica amparada na segurança coletiva (Nações Unidas); de outro, uma ordem econômica liberal organizada ao redor do dólar (Sistema de Bretton Woods). A força da visão de Roosevelt não decorria de sua originalidade ou lógica intelectual, mas dos resultados da guerra mundial que colocou os EUA no posto de número um. Hoje, poucos negam que o edifício da ordem erguido no fim da guerra enfrenta o desgaste do tempo e das intempéries. A dúvida é se, na ausência de uma guerra geral, a depressão econômica será violenta o suficiente para compelir as potências a uma reforma de consenso naquela obra. Logo saberemos.

DEMÉTRIO MAGNOLI é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP. E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br.

GILSON SCHWARTZ é economista, lidera na USP o grupo de pesquisa Cidade do Conhecimento (www.cidade.usp.br).

'Fim da tortura fortalecerá EUA'

O Estado de São Paulo

30/04/2009

Patrícia Campos Mello
Em entrevista, Obama diz que a informação poderia ter sido obtida de forma consistente com os valores do país
O presidente Barack Obama afirmou ontem que a técnica de simulação de afogamento, autorizada por seu antecessor, George W. Bush, é tortura. "Simulação de afogamento é tortura, e é por isso que eu acabei com essa prática", disse Obama em entrevista coletiva na Casa Branca marcando os primeiros cem dias de seu governo.
"Não importa que explicação jurídica arrumaram para isso, foi um erro." O presidente americano disse que a informação obtida pelo governo com o uso de simulação de afogamento poderia ter sido obtida de outra maneira. "Poderíamos ter obtido a mesma informação de maneiras consistentes com nossos valores, embora pudesse ter sido mais difícil", disse. Obama declarou que o fim da tortura tornará os EUA mais fortes. "Quando você começa a usar atalhos, você corrói o caráter da nação."
Obama disse estar "profundamente preocupado" com a situação no Paquistão. "Não por acreditar que o Paquistão será dominado em breve pelo Taleban, mas porque o governo civil está muito frágil, e não é capaz de prover os serviços básicos à população, como saúde, escola, um sistema jurídico que funcione para a maioria das pessoas."
Questionado se estava preocupado com a capacidade do Paquistão de manter seguro seu arsenal nuclear, Obama disse que confiava nas Forças Armadas paquistanesas para essa tarefa.Mas acrescentou que vem insistindo com os militares do Paquistão para que mudem sua estratégia: "Eles encaram a Índia como seu inimigo mortal, e na verdade deveriam se focar na ameaça interna - isso vem mudando nos últimos dias." "Vamos oferecer toda a cooperação e respeitar sua soberania, mas é preciso que o Paquistão saiba que temos interesses estratégicos e não queremos acabar com um país instável com um arsenal nuclear."
Obama declarou que está "contente com os progressos" alcançados nesses cem dias, "mas não satisfeito". Para marcar a data, ele participou de uma sessão de perguntas e respostas com eleitores na cidade de Arnold, perto de Saint Louis, no Missouri. "Estou confiante com relação ao futuro, mas não estou contente com o presente", disse. Questionado sobre o que o tinha deixado surpreso nesses primeiros cem dias, Obama não titubeou: "A quantidade de questões críticas que apareceram ao mesmo tempo."

Presidente fala sobre principais desafios de seu governo
Tortura
"Simulação de afogamento é tortura e é por isso que eu acabei com essa prática"
Iraque
"Os atentados espetaculares (que ocorreram recentemente) são causa legítima de preocupação, mas as mortes de civis e os atentados permanecem relativamente mais baixos comparados ao ano passado"
Paquistão
"Estou profundamente preocupado com a situação no Paquistão. Não por acreditar que o Paquistão será dominado em breve pelo Taleban, mas porque o governo civil está muito frágil"
Reforma imigratória
"Queremos avançar nesse processo. Não podemos continuar com esse sistema (imigratório) falido. Não é bom para ninguém"
Política interna
"Estamos longe de um bom começo. Mas é apenas um começo. Estou orgulhoso do que conseguirmos, mas não estou contente"
Gripe suína
"Seria parecido a fechar a porteira após a fuga dos cavalos
(sobre a possibilidade de fechar a fronteira com o México)"
Montadoras
"Estou muito otimista, mais do que há 30 dias, com que poderemos ver uma resolução que mantenha a Chrysler como uma fabricante de automóveis viável".

O fim do trabalho?

Folha de São Paulo de primeiro de maio de 2009

TENDÊNCIAS/DEBATES


A erosão do trabalho
RICARDO ANTUNES


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Este 1º de Maio nos leva a indagar: qual trabalho queremos para este tenso século 21 que mal está começando?
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"A RBEIT, LAVORO , travail, labour, trabajo." Não há nenhum canto do mundo que não esteja vendo o desmoronar do trabalho. A atividade que nasceu sob o signo da contradição foi, desde o primeiro momento, um ato vital, capaz de plasmar a própria produção e a reprodução da vida humana, de criar cada vez mais bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas trouxe consigo, desde os primórdios, o fardo, a marca do sofrimento, o traço da servidão, os meandros da sujeição.
Se o trabalho é um ato poiético, o momento da potência e a potência da criação, ele também encontra suas origens no "tripalium", instrumento de punição e tortura.
Se, para Weber, o trabalho fora concebido como expressão de uma ética positiva em sintonia com o nascente mundo da mercadoria e o encanto dos negócios (negação do ócio), para Marx, ao contrário, o que principiara como uma atividade vital se converteu em um não valor gerador de outro valor, o de troca. Daí sua síntese cáustica: se pudessem, todos os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!
E a sociedade da mercadoria do século 20 se consolidou como a sociedade do trabalho. Desde o início, no microcosmo familiar, fomos educados para o labor. O sem-trabalho era expressão de pária social. Mas a mesma sociedade que se moldou pela formatação do trabalho se esgotou. Ele se reduz a cada dia -e de modo avassalador. Enquanto a população mundial cresce, ele mingua. Complexifica-se, é verdade, em vários setores, como nas tecnologias da informação e em outras áreas de ponta, e resta exangue em tantos outros.
Onde cresce avassaladoramente, como no telemarketing, produz um ser falante quase mudo, repetidor do trabalho prescrito, movido a pequenos "regalos" ao final de um dia extenuante, cujos minutos e segundos são contabilizados e controlados. Assim nos encontramos hoje: temos muito menos empregos para todos os que dele necessitam para sobreviver. Os que têm emprego trabalham muito, sob o sistema de "metas", "competências", "qualificações", "empregabilidades" etc. E, depois de cumprirem direitinho o receituário, vivem a cada dia o risco e a iminência do não trabalho.
E isso não só nos estratos de base, onde estão os assalariados no chão da produção. Foi-se o dia em que os gestores, depois do corte, iam para suas casas com a garantia do trabalho preservado. Eles sabem que o corte deles se gesta enquanto eles laboram o talhe dos outros. Se vivêssemos em outro modo de produção e de vida, o tempo de trabalho poderia ser muito menor e mais afinado com o tempo de vida fora do trabalho, ambos dotados de sentido e fora dos constrangimentos do capital.
Mas, ao contrário, esses tempos se complementam em outro diapasão, com a casa se tornando espaço de trabalho adicional, e o tempo de vida fora do trabalho se vê cada vez mais encolhido e reduzido à esfera do que fazer para não perder a guerra quando o labor recomeçar no dia seguinte. A resultante é áspera e se conta na casa dos bilhões: aqueles que têm emprego trabalham muito, muitos já não mais encontram trabalho e outros fazem qualquer trabalho para tentar sobreviver com o que sobra da arquitetura societal da destruição. Em plena crise estrutural e sistêmica do capital, da Ásia à América Latina, da Europa à África, há uma nota tristemente confluente: como os assalariados que só dispõem de seu labor poderão sobreviver neste mundo sem trabalho e sem salário?
Dos EUA à China, de Portugal ao Canadá, da Inglaterra ao Japão, passando pelos tristes trópicos, novos recordes de desemprego são batidos todos os dias. Um incomensurável processo de corrosão e erosão se efetiva. Tal como foi desenvolvido ao longo do curto século 20, o trabalho tayloriano-fordista sofreu forte retração a partir dos anos 1970. Mas, com a intensificação desse quadro crítico, adentramos um novo ciclo de demolição do trabalho em escala global.
As diversas formas de "empreendedorismo", "trabalho voluntário" e "trabalho atípico" oscilam frequentemente entre a intensificação do trabalho e sua autoexploração. Dormem sonhando com o novo "self-made man" e acordam com o pesadelo do desemprego. Empolgam-se pela falácia do empresário-de-si-mesmo, mas esbarram cada vez mais na ladeira da precarização.
Em volume assustador, uma massa de homens e mulheres torna-se supérflua, esparramando-se pelo mundo em busca de um labor que já não mais existe. Este 1º de Maio nos leva, então, a indagar: qual trabalho queremos para este tenso século 21 que mal está começando?

RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 56, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Trabalho" e "Adeus ao Trabalho?".